Phil Mill e uma noites, e ainda longe de estar terminando

Por Francisco Cornejo

Foto de abertura: divulgação

Co-fundador de uma das mais inovadoras iniciativas a povoar a exuberante noite curitibana, Phil é um dos melhores representantes que a nova cena independente que revigora a cultura dançante pelo país poderia ter, especialmente nessa cidade tão arrojada do sul brasileiro. Mesmo que, ao notarmos sua jovialidade e uma certa inocência na postura e perspectiva – além da fisionomia – pudéssemos pensar que ele é um novato, sua atuação se espraia por muitas das coisas que fizeram dessa história algo nacionalmente único e notório.

A Alter Disco, núcleo que ele encabeça junto com algumas mentes dançantes da capital paranaense e que criou no começo da década, se tornou um baluarte da diversidade musical que tantos outros coletivos professam, mas na qual poucos demonstram proficiência. E é neste fator distintivo que ela se une a outras empreitadas que recobrem o território nacional com essa missão arqueoetnomusicológica, como a Selvagem, a Gop Tun e muitas outras que congregam ávidos amantes da riqueza musical do mundo atrás e na frente das cabines.

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Aqui ele abre um pouco de sua trajetória passada e futura, fala do que está cozinhando para este final de ano em que se apresenta no Warung ao lado dos likeminded explorers do Dekmantel, e fecha o ano junto a seus pares no XAMA 2019, a ser realizado na paradisíaca península de Maraú na Bahia.

HM – Aproveitando a comemoração recente de algumas voltas ao redor do sol, comecemos pela pergunta que normalmente encerra a entrevista: se o Phil de hoje pudesse encontrar o de algum momento da vida dele no passado, o que diria?

No que diz respeito a música, acho que recomendaria um aprofundamento mais intenso na pesquisa musical e mais tempo no discogs e Youtube há uns oito anos atrás. Essa era uma época onde eu já estava me abrindo pra uma exploração musical mais ampla e sinto que tangenciei muita coisa que me interessa hoje. Poderia ter descoberto esse universo bem mais cedo. Um exemplo foi ter me deparado, na época, com um material do Julien Achard, do Digger’s Digest/Digital Zandoli. Não fazia ideia do que era zouk naquele momento e, se tivesse ido mais a fundo, teria entendido mais cedo esse e outros gêneros de geografias e tempos diferentes que me interessam atualmente. E a bagagem estaria mais extensa.

HM – Curitiba sempre foi uma cidade que, dadas as dimensões e centralidade de opções de entretenimento e cultura, ofereceu muitas opções para quem fosse ávido por qualquer tipo de musicalidade. Como foi crescer como amante da música e, posteriormente, um profissional inserido nos processos que a põem em movimento?

A cultura da música eletrônica sempre foi bem forte por aqui. Na adolescência eu fui em algumas festas e já tinha acesso a esse universo do house e techno. Era um período que o house progressivo estava muito em alta, o Warung tinha acabado de abrir e Curitiba se alimentava muito dessa conjuntura. Esse período foi bem formativo no que diz respeito a cultura do DJ, da mixagem, da pista de dança. Depois de um tempo eu cansei da dance music e passei a ouvir muito mais indie rock, fiz uma banda com meus amigos da Alter Disco, e me desconectei da música eletrônica. Foi só com o fim da banda que eu lentamente comecei a me voltar pro universo da dance music, mas, dessa vez, com um foco bem diferente e bem mais amplo do que aquele contexto da minha adolescência. E foi a partir daí também que comecei a ser mais ator, não mais apenas espectador do movimento musical da cidade.

HM – A Alter Disco também é parte desse universo todo, não? Como ela se insere nele e vice-versa?

A Alter Disco está na ativa desde 2011, período no qual voltei a discotecar, pesquisar música e junto com meus amigos começamos a fazer pequenos encontros onde o foco, ao menos pra nós, era a questão da novidade, da exploração musical. Todo mundo passava a semana baixando música e nos finais de semana nos reuníamos pra ficar tocando. Apesar de na época a gente nem conhecer o que rolava na cena de São Paulo, eu traço um paralelo entre a Alter e o que rolou com a Gop Tun e a Selvagem. A cena eletrônica aqui ainda era dominada por techno, minimal, alguma coisa de house, e não tinha uma festa ou coletivo relevante que estava disposto a tocar italo, baleárico, afro, disco, boogie junto com house. Criamos a Alter por essa necessidade de ouvir e apresentar o que nos interessava pro nosso grupo de amigos, e nessa época acho que fomos todos percebendo que a pesquisa iria longe (e foi!). Hoje quero crer que a Alter é reconhecida pela liberdade musical e tem seu espaço como uma opção de entretenimento.

HM – E qual o conceito, se houver algum, para o que ela é ou se tornou? Qual foi a inspiração para o nome?

Na época precisávamos de uma alternativa viável para os nossos finais de semana, estávamos meio órfãos da cena, sem conseguir nos encaixar, e daí surgiu o nome. Acho que o conceito inicial se mantém ainda hoje, que é esse lugar de aprofundamento e liberdade musical, de poder mixar um pouco de tudo se fizer sentido. No fim das contas é uma deferência a música dançante e festiva em todas as suas formas.

HM – E quanto a você, qual foi sua introdução nesse mundão de estímulos sensoriais e ímpeto hedonista que a noite dançante oferece nos dois lados da cabine?

Eu comecei a discotecar em 2002. Quando fiz 15 anos descolei um par de toca discos e um mixer influenciado por amigos DJs de Curitiba. Nessa época tinha muito hard house, house progressivo e techno, e essa foi minha base na discotecagem. Provavelmente um dos meus discos favoritos comprados nesse período é do Mr G. Ainda toco a faixa “Moments” em alguns sets, é um disco que eu tenho muito carinho e que eu já gostava muito há 15 anos atrás.

Depois de uns anos discotecando, eu acabei largando e indo pro indie rock, e a volta pra discotecagem em 2012 veio com essa pegada de expansão de horizontes musicais. Voltei a comprar disco nesse período e quando passei dois anos em Chicago, estudando. Me dediquei bastante pro boogie, disco, funk americano e também pro house old school. A partir daí já virou aquela salada maluca entre fim dos anos 70 e 2018, música étnica, de tudo um pouco.

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HM – Até agora, quais os principais desafios que você conta em sua trajetória como um profissional do universo cultural da vida noturna dançante?

O maior desafio é achar tempo suficiente pra me dedicar a música, a Alter, e conciliar isso com uma rotina de trabalho e de saúde física e mental. Sempre sinto que queria gastar mais tempo produzindo, pesquisando, mergulhando na música, e tento equilibrar isso com o resto da vida.

HM – E o que você vê adiante para seus planos, projetos, peripécias, parcerias e profissão em geral?

A Alter continua firme, e nesse ano eu comecei uma festa nova cujo foco é trazer música ao vivo num primeiro ato, seguido de um DJ no segundo ato. A primeira edição teve o Millos Kaiser do Selvagem junto com a banda curitibana Marrakesh, e a segunda edição teve o pessoal de Curitiba do Trombone de Frutas / Loop Room, que são excelentes músicos, e um amigo meu e DJ francês (La Fortune) que estava visitando. Vou tentar levar esses encontros em paralelo, acho uma oportunidade bacana de apresentar música ao vivo e discotecagem e misturar públicos que são mais de um ou outro rolê. Fora isso, tentando gastar um pouco de tempo brincando de produção e pesquisando sempre mais.

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