Por Francisco Raul Carnejo
Foto de abertura: Sigma F.
Qualquer um que decidiu enfrentar as intempéries a que os paulistanos foram submetidos neste final de semana tanto é digno de elogios pela resiliência quanto teve o enorme privilégio de sentir na pele como é curtir um evento de música eletrônica predominantemente europeia num clima tipicamente europeu. Felizmente, não foi apenas a derme a ser estimulada de modos especiais e até extremos, os demais sentidos também foram desafiados, de formas bastante agradáveis.
O Village Canindé se tornou o locus preferido dos mais diversos eventos de música na cidade por inúmeros motivos, sejam eles burocráticos, estéticos, geográficos, orçamentários ou simplesmente afetivos, e os abrigou nos mais variados formatos, dimensões e durações. Assim, foi o local escolhido para que o núcleo Ressonancia realizasse sua sétima aparição no calendário festivo da cidade, após ter passado por locações paulistanas célebres, desde os Trilhos ao Warehouse na Mooca, até a fábrica da Rua Patriotas no Ipiranga, num gélido sábado de fim de meados de inverno.

Foto: Sigma F.
Contudo, ainda que a natureza impusesse limites, esses pareceram irrelevantes para os que compareceram e muito mais para os que chegaram cedo. A organização foi generosa com todos e forneceu aquele mínimo de itens infraestruturais que distinguem uma mera festa de um evento concebido e preparado para que todas as distrações que nos separam da fruição musical possam ser minimizadas. Bares fluindo e não entupindo, seguranças protegendo e não se intrometendo, banheiros ajudando e não atrapalhando. Todos os pontos elementares da excelência de qualquer empreitada deste porte que, mesmo que não sejam impecáveis na entrega, fazem toda diferança como intenção.

Foto: Sigma F.
Ademais, outro diferencial que a Ressonancia já carrega como parte de sua identidade desde o início é a atenção aos detalhes cenográficos. Aqui esta tarefa foi incumbida à já incensada dupla criativa por trás do estúdio Sala28. E o resultado foi mais uma daquelas ambiências que impressionam a todos pelos belos efeitos obtidos através de uma invejável capacidade de intensificar a experiência sonora por meio da economia de recursos. Tudo somado à sua notória habilidade em se destacarem e reinventarem a cada novo projeto, seja pela originalidade entre os tantos que executam, ou pela autenticidade entre todos que os imitam.

Foto: Sigma F.
A ideia por trás desta edição era a de congregar artistas de várias partes do mundo numa convocação eclética de talentos que orbitava predominantemente ao redor do Techno, o sabor do momento entre as preferências da multidão dançante, e das mais arrojadas manifestações recentes do Prog House, gêneros diletos dos fundadores e residentes do projeto, Guss e Minoru, este fazendo as honras como arauto de um noite que começava fria, mas ia esquentando à medida que avançávamos em sua escuridão.

Minoru – Foto: Sigma F.
Obviamente, a gama de ritmos apreciados não se limitou àqueles, como ficou claro com a escalação da divertidíssima expatriada brasileira Joyce Muniz, que trouxe de Viena consigo uma bela mistura que amalgamou doses de tudo um pouco de cada canto do espectro musical num delicioso caldo que esquentou os presentes durante os estágios iniciais. Sua empolgação era contagiante como usual. O diferencial aqui, foi ela se mostrar extremamente satisfeita em fazer amplo uso de um slot longo para poder melhor tensionar humores e momentos do jeito que tanto gosta, algo estimado por ela e que considera um trunfo de alguns festivais atuais.

Joyce Muniz – Foto: Sigma F.
O outro anfitrião, Guss, se encarregou de manter a toada e entregou uma atmosfera ainda mais carregada para o duo alemão Monkey Safari ocupar os controles e intensificar a energiar no ar. Seu estilo acessível e melódico, impulsionado por uma potente carga rítmica, serviu perfeitamente para tornar o ar mais denso e o clima mais intenso na parte crucial da noite. Isto criou um ambiente ideal para que o finlandês Yotto, lançasse mão de seu domínio singular de elementos musicais emotivos e percussivos para elevar a pista e conduzi-la ao auge.

Yotto – Foto: Sigma F.
Entretanto, uma nublada alvorada como aquela ainda permitia voos mais longos manhã adentro, sendo que a pista emitia calor suficiente para romper as temperaturas glaciais que caiam sobre os presentes e a comandante encarregada de tocar a jornada pelo horizonte era a tarimbada Magda, que decolou suave e rapidamente rumo a horizontes pontuados de Electro e seguiu firme em direção às paisagens do Techno com que possui profunda intimidade. Mantendo a pulsação e manipulando a vibração forma precisa, ela preparou os elementos para que fossem acelerados na reação que se materializou com entrada de Wehbba.

Wehbba e Magda – Foto: Sigma F.
O potencial explosivo que a sonoridade desse nosso mais célebre nome do Techno mundial consegue trazer a qualquer recinto foi catalisado pelo caráter apoteótico do momento e pelo estado perfeito de reações que se acumulou até ali. Daqui em diante, só dois tipos de corpos povoavam a pista: uns extáticos e outros estáticos, porém ambos inegavelmente afetados pela intensidade daquilo que ocorria.
Rompida a barreira das 12h, um marco que coroa qualquer jornada musical e a torna uma odisséia, sobra bem pouco a ser dito. Talvez pelo fato de que muito tenha sentido e dançado ao fim desse período. Isto sem dúvida pode sobrecarregar nossos frágeis dispositivos corporais, mas também os alimenta com memórias inestimáveis e uma sensação duradoura de que cada instante foi repleto de estímulos.
