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POR Nazen Carneiro e Jeniffer Avila FOTOS Adriel Douglas * Matéria publicada na House Mag impressa #47 |
Figura carismática da cena eletrônica, Claudinho Brasil — alcunha artística do curitibano Claudio Perrini — sempre deixou claro que tem uma identidade de fato própria. Pesquisador e estudante da música, é DJ e produtor musical com mais de vinte anos de carreira, além de autor de livro, baterista, cantor, entre outros talentos. De passagem por Santa Catarina, o artista conversou com a redação da House Mag sobre sua carreira, história e planos futuros.
Oi Claudinho, muito obrigado pela entrevista. Você é músico de formação. Como chegou na música eletrônica?
Olá, eu que agradeço a oportunidade. Boa pergunta, pois foi um fato curioso: eu estava em uma aula que tive na faculdade de música. A disciplina era “Evolução da Música” — e tínhamos acabado de estudar um texto que tratava sobre os elementos presentes nos rituais primitivos: repetição rítmica e melódica, que aliados com a exaustão física (da dança sempre presente nesses rituais), provocavam, por sua vez, estados alterados de consciência. Isso fez com que eu questionasse a professora: “Mas esses não são exatamente os mesmos elementos que predominam na música eletrônica, assim como nas festas rave?”. Então a professora sugeriu que eu pesquisasse mais a fundo sobre esse assunto e levasse para os alunos da classe. Minha paixão pela música eletrônica, curiosamente, nasceu antes da teoria, isso foi em 2002. Só em 2005 pude ir na minha primeira rave, e foi justamente para confirmar todos os meus estudos, na prática.
Como surgiu a oportunidade de escrever seu livro? Foi por causa dos seus estudos sobre a relação dos rituais primitivos com as festas rave?
Exatamente isso. Depois do questionamento que fiz em sala de aula, fui pesquisar mais a fundo sobre o assunto para apresentar para minha classe. Naturalmente virou uma palestra que apresentei para vários cursos, faculdades, escolas, assim como livrarias e oficinas. O título da palestra era: “A Modernização da Música Primitiva”, que faz justamente a relação e aproximação dos rituais
primitivos com as festas rave de música eletrônica. Mais tarde a palestra virou um livro com o mesmo nome. O livro vem acompanhado de um CD com minhas produções musicais, onde a teoria se transformava em prática musical.
Você também tocou bateria e cantou em uma banda de rock por oito anos. O que traz dessa época para sua carreira de DJ e produtor musical?
Muita coisa, mas a primeira que vem na cabeça é a bagagem musical. Interpretávamos artistas como The Doors, Jimi Hendrix, Raul Seixas, Chico Science. Eu sempre propus pra banda a mistura do rock com elementos da música brasileira. É o que faço até hoje nas minhas produções de música eletrônica. E são artistas como esses que fiz questão de trazer pra rave com releituras em trance de suas grandes obras.
O que fez você resolver sair da banda e tomar um novo rumo na sua carreira?
Foi pela necessidade de ganhar mais espaço no mercado musical; percebi que não tinha muito como crescer com a banda. Também porque sempre tive a pretensão de criar algo novo, autoral, e com a banda a gente dependia de tocar muito cover de outros artistas. Então decidi, desde o início, que não seguiria carreira de DJ e sim de produtor musical; pois eu queria tocar minhas próprias músicas ou releituras criadas por mim e em colaboração com outros artistas. Por isso, em 2005, fiz meu primeiro curso de Produção Musical na AIMEC (Academia Internacional de Música Eletrônica de Curitiba). Em dezembro do mesmo ano já comecei a me apresentar com o meu primeiro live de produções autorais. No ano seguinte fui convidado para ministrar aulas e cursos na mesma academia.
De onde surgiu a ideia de usar o Nintendo Wii e demais dispositivos alternativos na sua apresentação?
Quando fiz o curso de Produção Musical na AIMEC, e logo depois comecei a lecionar na mesma academia, conheci vários produtores e músicos locais. Foi uma experiência muito construtiva. Um dos professores e sócios da academia, o Ilan Kriger, foi o primeiro que me apresentou essa ferramenta. Descobri então que o controle de Wii da Nintendo é um controlador sem fio, que poderia controlar qualquer parâmetro (musical) dentro do software Ableton Live. Logo consegui visualizar uma série de possibilidades performáticas que eu poderia fazer nas minhas apresentações. A primeira que pensei e logo coloquei em prática foi “tocar bateria no ar”. Fiz alguns vídeos tutoriais no YouTube explicando essa entre outras possibilidades performáticas com o Wii. Vale a pena ver.
Cada vez mais os estilos se misturam, inclusive, nos lineups dos eventos. Como você vê essa mescla?
Tem muita gente que tem bastante dificuldade de lidar com o novo, com as misturas, com as quebras de paradigma; eu já sou diferente, amo o novo! A novidade me cativa, me fascina. Então, por isso, sempre apreciei a diversidade musical e a diversidade na música eletrônica. Por esse motivo, quanto mais possibilidades de intercâmbio e menos preconceito, melhor!
Uma mensagem do Claudinho para os fãs?
Primeiro gostaria de agradecer de coração todo o carinho que venho recebendo. Tenho vinte anos de carreira, sendo doze de trance, e nesse último ano que as coisas começaram a acontecer realmente, como por exemplo tocar ao redor do mundo. Um dia antes da minha gig no El Fortin eu estava em Israel me apresentando e sendo recebido com o mesmo carinho que sou recebido aqui no Brasil. Sinceramente nem tinha a pretensão de tocar no mundo todo. Enfim, isso é incrível e só tenho a agradecer! Minha mensagem é: se você acredita em algo, nunca desista! E se você desistir, pior pra você (risos). ■

