A Música e o Poder


Por: Alain
 Patrick

Quando recebi o convite da editora de conteúdo do site da House Mag para escrever sobre música e política, em princípio, relutei. Afinal, como escrever a respeito em um momento tão difícil, onde a palavra `Política` causa tamanha repulsa? Foi então que lembrei da era Acid House, dos anos de libertação e hedonismo da Disco, das noites de Jazz em redutos frequentados por pessoas segregadas no seu dia a dia, das músicas sobre protestos por Direitos Civis em cidades como Detroit e Chicago, do dia a dia nos guetos no Brooklyn, Bronx, e Queens e as origens do Hip Hop, dos respectivos eventos de vanguarda clubber nos porões, das festas feitas em galpões ilegais, e tudo o que estes movimentos culturais alternativos representaram. A elucidação do fato de que política tem dimensão infinitamente maior do que as discussões partidárias aparentam demonstrar.

Se esquecermos por um momento os partidos políticos e lembrarmos dos direitos civis, a coisa vai longe. 

A arte e a música sempre estiveram presentes em todos os segmentos da sociedade, dos mais favorecidos aos excluídos pelo sistema. Quantos gêneros musicais, por exemplo, não foram expressão destas culturas diversas, grande parte das vezes pouco conhecidas do grande público? A arte não representou, de alguma forma, a essência e os interesses destes grupos? Quais espaços estes núcleos teriam se não fosse através dos seus eventos, não raro, considerados ilegais ou imorais? Em todos estes momentos, há e sempre houve uma relação de poder, traduzida em luta por liberdade.

O objetivo desta coletânea abaixo, que relaciona música com política no seu sentido mais amplo, é um convite à reflexão e uma visita à consciência através de uma proveitosa audição.

São incontáveis capítulos em que música representou tão bem estes anseios por direitos fundamentais, igualdade, dignidade e liberdade. Imaginem que dá para elaborar uma lista só com exemplos de cinema, pintura, etc. São infinitos. 

Aqui vão alguns destes episódios. Boa imersão.

 

– Billie Holiday em `Strange Fruit` (1939), sobre os cruéis assassinatos e linchamentos de Afro Americanos, cujos corpos eram pendurados em árvores no sul dos EUA;

 

 
– `Alabama` (1963) de John Coltrane, dedicada à vida dos Afro Americanos cercada de sofrimentos, racismo e injustiças no Estado do Alabama, EUA. 
 

 
 
 

– `People Get Ready`
 (1965) do Curtis Mayfield & The Impressions sobre o espírito de luta durante o movimento pelos Direitos Civis;
 

 
 
 
 
– Um dos maiores compositores do século XX, Krzysztof Penderecki dedicou uma das suas obras, `Auschwitz Oratorium` (1967) a um dos episódios de crueldade sem paralelos na humanidade – o holocausto – e ao campo de concentração em Auschwitz, na Polônia.
 

 
 
 
 
– Obra prima de Soul do Donny Hathaway, `The Ghetto` (1970), cujo tema, a vida nos Guetos, foi retratado em incontáveis obras, tais quais a versão do genial J Dilla de `Oblighetto`, do Jack McDuff (1969). 
 

 
 
 
 
– Em 1973, o Presidente dos EUA era Richard Nixon, e foi durante seu governo que eclodiu o escândalo de espionagem denominado Watergate, pelo qual foi acusado de estar envolvido. Em sinal de protesto, a banda de Roy C – The Honey Drippers – compôs `Impeach The President` (1973), cujo solo inicial de bateria foi eternizado nos samples de diversas obras de RAP e Breaks nas décadas seguintes. 
 

 
 
 
 
– “At last, I`m free! I mean – I really can be me!” O reverendo Carl Bean cravou, em plena era Disco, um dos maiores hinos em prol dos direitos dos gays pela Motown em `I Was Born This Way` (1977), bastante tocada nas pistas de clubs como Paradise Garage, cuja acappella e bases rítmicas foram sampleadas por dezenas de produtores desde então (entre elas, `Earth People – Dance`).
 

 
 
 
 
– “The food you eat is political. The water you drink is political”, disse certa vez Fela Kuti, um dos grandes pioneiros do Afrobeat, em uma época em que o país onde seu país, a Nigéria, vivia um verdadeiro caos político de violência e repressão. 
 
 
 
– Na Inglaterra conservadora de Margaret Tatcher no final dos 80, as festas de Acid House eram consideradas mais perigosas e imorais do que se ter componentes para fabricar bombas. A própria defesa pelo hedonismo e o direito de festejar em locais inusitados, ouvindo sons feitos por equipamentos eletrônicos contrastava com o conservadorismo britânico no poder. 

 
 
– Detroit também viveu, na época dos protestos de 1967, uma relação muito estreita entre política (leia-se luta pelos Direitos Civis) e música. É só lembrar de grupos como o da Tribe, gravadora antológica de Jazz, por onde lançavam Marcus Belgrave, Phil Ranelin, Wayne Henderson e cia. (uma coletânea que ilustra bem o período é Freedom Rhythm & Sound – Revolutionary Jazz & The Civil Rights Movement
 
 
 
– Na mesma Detroit, o coletivo Underground Resistance, em uma de suas primeiras obras, `The Theory` (1990), usou o sample “The needs of the many outweigh the needs of the few” (as necessidades de muitos se sobrepõem às necessidades de poucos), assim como fez The Martian em `Lost Transmissions From Earth` (1992) com o sample “Spirit of the People is greater than man`s technology” (o espírito do povo é maior que a tecnologia do homem), um claro alerta aos excessos da sociedade industrializada.
 

 
 

– `We Shall Overcome` (1990), do Kenny Larkin pelo selo Plus8 de Richie Hawtin, sampleia um trecho discurso do Martin Luther King. Há também um single da Motown com o discurso sobre a Grande Marcha pela Liberdade, `The Great March To Freedom` (1963).
 

 
 
 
– O mesmo fizeram Fingers Inc. em `Can You Feel It` (1988) pela Jack Trax com a famosa acappella de Martin Luther King, e `Free At Last`, do Simon, que estourou nos 2000, também tinha o célebre `I Have A Dream`;
 

 
 
 
 
Depeche Mode surpreendeu com `People Are People` em 1984, cuja letra, “I can`t understand / What makes a man / Hate another man / Help me understand”, foi um verdadeiro manifesto contra o ódio. 
 

 
 
 
 
Apenas um ano após, em pleno final de Guerra Fria, o grupo de EBM Front 242 lançou o EP `Politics Of Pressure`
 
 
 
Em 1988, o mundo foi surpreendido com `Straight Outta Compton`, cidade ao sul do centro de Los Angeles, de onde surgiram os Niggaz Wit Attitude (N.W.A.), considerados pioneiros do Gangsta RAP.
 
 
 
O Hino dos hinos, feito pelos arautos da luta contra o sistema: não houve grupo mais político do que Public Enemy, dos MCs Chuck D e Flavor Flav, cujo hit `Fight The Power` (1989), ecoou nas ruas e clubs de todo o Planeta. 
 

 
 
 
 
 
Para encerrar, ninguém melhor que Rage Against The Machine com a música de protesto `Killing In The Name Of` (1991), ao proclama“And now you do what they told ya, now you`re under control”
(e agora você faz o que te mandaram, agora você é controlado).


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