Por: Felício Marmo
Fotos: Image Dealers
Quando você está no front dançando, olha para o lado e vê o Bruno Furlan em cima do ombro de um amigo acenando pro DJ, é sinal de que você está no lugar certo.

A Michael Deep, que aconteceu na última sexta-feira em São Paulo em um hangar dentro do Campo de Marte, foi bem isso. Uma celebração por e para aficionados nas sonoridades modernas do g-house e bass house. Segundo a organização, cerca de 2 mil pessoas passaram pelo espaço, sendo a maioria jovens de 20 e poucos, entre DJs, manos, boys, periguetes e alternas, juntos e misturados. No gargarejo, o idioma era o “vai porra” – mais frito impossível. No geral, o clima foi bem diversificado com pinta de festival, variando entre os mash-ups do freak Billy Kenny, as aulas de Kyle Watson ou as pedradas do Malaa.
Este último culminou em um set morno contrariando (tanta) expectativa ao redor do personagem.

A Michael Deep começou com o RDT, que fez as honras com bom set de house. O brasileiro passou o manche pro inglês Billy Kenny, às 1h30. Nessa hora, pouco menos da metade da lotação era preenchida aos poucos. A entrada do público sofreu lentidão até em torno de 2h30, já que muita gente chegou no mesmo horário, causando aglomeração nas vias de acesso ao hangar.
Quem conseguiu colar cedo na grade pegou o garoto indo do deep mais classudo com “The Song”, faixa de 2012 do Stimming, costurando com alguns drops de dubstep (!) e a pegajosa “In For The Kill” (La Roux) em versão tech-house inferior ao grande clássico remix feito pelo Skream.
Mas a casa caiu mesmo quando tocou sua “I Eat The Beat” na metade do set. Depois animou mais com “Classic” (Fractall) e a irmã mais velha “Nasty” (Marc Spence).
Já no final, aprontou mash-ups de trap e rap 2000 (?), soltou refrões de “CoCo” (OT Genasis) e “Because I Get Right” (Afroman), e “Bad Karma” (Axel Thesleft). Corajoso, Billy Kenny fechou com “Purple Rain” do Prince na versão original. Eu disse original. A lenta e romântica, causando um down na pista, pois nem todo mundo entendeu, mas eis que na sequência veio aquele que roubaria a noite comprovando o quanto tem fãs fiéis nessa cidade, Kyle Watson.

Quando o sul-africano de olhar sereno subiu na cabine às 3h, o hangar já estava abarrotado e havia um gargarejo de fãs que pediam as tracks por nome e frases escritas no celular.
O criador de seu próprio estilo deu aulas na Michael Deep, colocou graves certos no peito da galera e um show de hits próprios durante 1h30. Vocais ecoaram pelo hangar em “Don’t Talk” e “Sink Deep” – fora os wobbles (basslines) rasgados que são sua marca registrada.
Kyle colocou geral no bolso tocando a absurda “Harvard”. Também soltou tracks de outros produtores, como a ótima “It’s Well” do Diligas (anote esse nome) – tocamos no podcast Basstard FM 04 (que você confere logo abaixo), mas o grande finale veio com sua faixa mais emotiva convidando geral a sonhar de olhos abertos, “Moments”. Kyle saiu muito ovacionado.
Ninguém queria estar na pele do DJ que entraria depois e, real, não foi nada fácil para o Malaa superar a vibe alcançada. O set foi razoável, em minha opinião. Ele começou com “Nonstop” (Sharam Jey & Kolombo) e uma linha deep-tech, caindo para basslines mais marcados. Conquistou gritos primeiro com o remix do Shapeless & Golden Leaf pra “When A Fire Starts To Burn” (Disclosure).
Ainda assim, demorou mais de meia hora pra tocar suas faixas, aquelas que são parte do motivo dele atravessar oceanos. Por volta das 5h30, soltou a mão com “Pregnant” e “Asernic”, mas foi com “Diamonds” e seu remix pra “Mind” (Skrillex & Diplo) que a coisa finalmente bombou.

Já era mais da metade do set avançado e Malaa ainda focou no underground dos anos 1990, mandando funk house e o clássico de Chicago “Renegate Master” do Wild Child. Coisa linda, mas desconhecida dos novinhos, passou despercebida. A expectativa é a mãe da merda, né? Confesso, o mistério Malaa foi uma coisa bem estratégica e divertida na web mas ao vivo é diferente. Seus dois seguranças ficam na cabine o tempo todo encarando o público e de braços cruzados –, achei tudo isso meio bad. Claro, até dá pra entender o prejuízo que seria pra marca se alguém causasse de ir tirar sua toca milionária, mas além da segurança sisuda, o fato de não poder ver a expressão e o tesão do artista ao vivo deixou aptresentação fria e distante.

A resposta estava na pista, pergunte a quem foi. Bastou Justin Martin entrar com sua “Dont’ Go”, com sorrisão no rosto e quase que na mesma hora tudo mudou de cena. O resto é história e foi longe. Festão!
