Os discos brasileiros estão sumindo do Brasil. E agora?


POR: Flávio Lerner
 

O universo da discotecagem naturalmente seguiu o fio evolutivo da nossa sociedade e se modernizou. Hoje, grande parte dos DJs é usufrutuária de tudo o que a tecnologia tem de bom e do melhor — música digital comprada em lojas virtuais e transportada em pendrives, convertendo caixas que pesavam quilos e quilos em dezenas de gramas; softwares de produção e de discotecagem que reproduzem toca-discos, sintetizadores e instrumentos musicais; e por aí vai. Contudo, outros tantos, por romantismo, conservadorismo, nostalgia ou sabe-se lá por que mais, ainda nutrem grande apreço pelo jeito clássico e bem menos prático de se cultivar a cultura DJ. Discos de vinil são considerados ainda peças valiosíssimas, e por carregarem dentro de si um material cada vez mais inacessível, ganham um valor intangível para muitos DJs, que, em sua posse, tornam-se donos de um material raro, que em tempos virtuais não se encontra disponível a um simples clique. Assim, não apenas DJs, mas também colecionadores e discófilos em geral dedicam boa parte de seu tempo e dinheiro atrás daquele material cada vez mais escasso, obscuro e especial.

O lado ruim disso é justamente que essa restrição vai cada vez crescendo mais, e, se nada é feito para reverter o processo, o tempo trata de pôr um ponto final no que antes era raro. No fundo, discos não são nada menos que objetos perecíveis, que acabam se perdendo, quebrando, indo pra vala — e aí, num desfecho trágico, aquela música fantástica nunca mais será reproduzida.

No Brasil, essa questão se acentua. Somos orgulhosamente conterrâneos de uma das culturas musicais mais ricas do planeta, que, ao mesmo tempo, por uma série de fatores, não parece ser tão valorizada ou reconhecida por nós mesmos como deveria. Sim, eu já escrevi sobre isso aqui outras vezes*, e recentemente essa bola foi levantada pelo DJ Dinho Robles, de São Paulo. Em uma postagem no Facebook, o rapaz não apenas lamentava o fato do brasileiro conhecer tão pouco da própria música, mas chamava a atenção pro fato de que os gringos — principalmente os japoneses —, mais antenados que nós, estavam se garantindo com as últimas cópias das nossas pérolas obscuras. “Em pouquíssimo tempo, toda nossa riqueza musical será levada pra fora do Brasil, tenho certeza disso”, cravou.

“Sempre gostei de música brasileira, mas comecei a ir fundo mesmo há uns quatro anos. Hoje pesquiso de tudo um pouco pra aplicar no meu trampo como DJ”, segue Dinho, que divide a carreira de DJ com a administração de imóveis — e nisso, o plano de em breve mudar pra Lisboa e abrir uma loja de discos, com foco em música eletrônica. “A diversidade musical do Brasil é o que mais me atrai. Houve uma miscigenação muito grande aqui, que afetou diretamente essa nossa música, criando sonoridades únicas. Quero motivar os brasileiros a enxergar nossa música e cultura com mais carinho. Nossa educação incentiva essa cultura europeia e norte-americana, e as pessoas acabam admirando nada daqui”, continua, tocando na velha questão do vira-latismo. E, de fato, o DJ lembra os casos recentes em que os Martinez Brothers e o holandês Antal tocaram Tim Maia pra plateias brasileiras, o que levou a muitos produtores e DJs brazucas a repetir o gesto — o DJ Meme também se manifestou sobre esse episódio na ocasião [veja aqui]. Dinho acha, portanto, que “as pessoas estão começando a dar atenção à nossa cultura; um pouco tarde demais, mas está rolando”. A questão é: o quão tarde seria? Os nossos discos vão evaporar, e, com eles, boa parte da nossa riqueza musical?

“A música brasileira é absurdamente rica. Tem muita coisa que ficou na obscuridade por anos, e foi descoberta por quem pesquisa a fundo, incluindo aí muitos diggers gringos”, acrescenta o DJ — também paulistano — Ney Faustini, que segue a mesma linha de raciocínio. “Faz pelo menos 20 anos que os discos brasileiros são levados pra fora, e isso fez com que esse mercado pra nós ficasse totalmente distorcido. Tem muito disco que você só vai conseguir encontrar no Japão. O que eu vejo é que DJs, diggers e colecionadores de fora sempre deram um valor enorme pra nossa música, e se muniram antes que muita coisa ficasse de fato valorizada por aqui. E isso já bem antes do mercado do vinil se reaquecer com essa enxurrada de reprensagens de discos brasileiros raros que tem rolado, a preços abusivos.”

O DJ Paulão, empresário, produtor cultural e dono da Patuá Discos, loja que fica na Vila Madalena, em São Paulo, também é apaixonado por música brasileira — produz com o DJ Formiga o programa Brazuca!, na rádio virtual Radio Silva, mas acha que a tese defendida por Dinho e Ney não se sustenta. “A migração existe, é um fato; talvez hoje o melhor lugar pra encontrar discos raros brasileiros seja Tóquio. Mas diz-se que o maior motivo é que os estrangeiros gostam mais das músicas do que nós, quando o principal fator é claramente econômico — a desvalorização da moeda brasileira. Não são mais pessoas que gostam desses discos fora, e tampouco elas gostam e conhecem mais do que nós”, crava. “Por outro lado, um problema burocrático e diretivo dos selos, que dificultam o relançamento desses discos no Brasil, e um relaxamento da política autoral, especialmente na Europa — que permite que sejam lançados reissues de discos sem pagamento dos direitos cabíveis por lá —, faz com que a onda de redescobrimento de pérolas nacionais se realize fora do Brasil, e passamos de difusores a consumidores desses produtos, ironicamente.”

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O que todos concordam, portanto, é que os nossos discos estão cada vez mais inacessíveis para nós mesmos. Então como virar esse jogo? “Já existe uma série de selos pequenos que estão revertendo esse processo, com muito trabalho e cuidado. É gente que conhece música brasileira em profundidade e tem se esforçado pra relançar bons discos nacionais e superar a burocracia”, segue o DJ Paulão. “Ainda tem várias coisas por fazer: em primeiro lugar, um envolvimento maior no projeto que isenta o disco de taxas, no mesmo padrão do que acontece com o livro. Seria muito interessante que a burocracia pra licenciamento dos fonogramas fosse mais simples, e que os canais de comunicação entre selos, gravadoras e editoras sejam mais claros.”

Outra alternativa, que redemocratizaria de vez essa música e a tornaria completamente acessível é a digitalização, lançando esses discos diretamente na internet, seja à venda, em lojas como Juno, ou até mesmo em streaming, como no Spotify ou no Youtube — medidas que podem encontrar certa resistência, porque, além dos trâmites legais, esse conteúdo perde seu status de exclusividade, pra tristeza de muitos de seus consumidores. “A digitalização é interessante principalmente pra pesquisa, pras pessoas conhecerem a música”, segue o Dinho, que inclusive pensa em ter um canal no Youtube com algumas digitalizações dos discos que pretende vender em sua nova loja. “Mas eu, como DJ, preciso do disco físico pra tocar.”

“Esse interesse por pérolas obscuras da música brasileira é restrito, mas tem ganhado uma força muito grande como cultura underground, e tem sido pesquisado por alguns dos grandes artistas brasileiros, como Marcelo D2, Marisa Monte, Ed Motta, Bixiga 70… Isso revitaliza essa pesquisa”, continua o Paulão. “O fato é que nossa tendência musical é antropofágica, de receber influências externas e as trabalharmos com o objetivo de criar um som novo, autoral. E isso cria um interesse: a música brasileira sempre tem um componente conhecido do estrangeiro, o que facilita o gosto, mas também algo original, que faz com que essa curiosidade sempre esteja presente.” Talvez não seja tarde demais, afinal, pra desbravarmos nossa herança musical — o que, não tenha dúvidas, vai se refletir positivamente numa música eletrônica brasileira muito mais valiosa e original.

* Esta matéria está diretamente relacionada a outros dois artigos do autor, que abordou a questão da relação do DJ e clubber brasileiro com a própria cultura nacional. Em “Sim, passou da hora de termos músicas em português na cena eletrônica nacional”, publicada em junho, Flávio Lerner questiona a ausência da nossa língua não apenas nas letras das músicas, mas também nos nomes de empresas, projetos, selos e festas produzidos no Brasil; e em “Sobre vira-latismo, techno e o groove nacional”, publicado em maio na revista impressa e em setembro na online, investigou o vira-latismo presente na relação com a cultura do nosso país, entrevistando nomes como MarkyPatifeCamilo RochaOmulu e Tahira.

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