De álbum novo e data marcada no Brasil, a referência do techno OCTAVE ONE conversou com a gente

Por: Alan Medeiros e Gabriela Loschi

Reúna em um mesmo projeto grandes influências de Chicago e Detroit. Some a isso uma concepção artística atemporal e o carisma de quem sabe perfeitamente a importância da música na vida das pessoas. Juntas, essas características podem ser encontradas em pouquíssimos artistas. Entre eles, estão os irmãos Lenny e Lawrence Burden, mais conhecidos no mundo da música como Octave One.

O nome do projeto ganhou força mundialmente após o sucesso de “Black Water”, lançada em 2000 pela 430 West e que vendeu mais de um milhão de discos em todo globo. O EP rendeu colaborações de Lenny e Lawrance com nomes consagrados da dance music americana, como Derrick May, Massive Attack, Joey Negro, DJ Rolando e Steve Bug. 

 
Além de “Black Water”, Octave One alcançou sucesso de crítica na mídia especializada através de discos como Empower, Nicolette, The X-files e mais recentemente com o álbum Burn it Down. Agora, mais especificamente no dia 25 de novembro, eles lançaram o novo állbum: “Love by Machine”, em vinil e digital. São 9 faixas de grooves hipcóticos e melódicos – mas você vai saber mais sobre este novo trabalho ao longo da entrevista.

Após uma participação no posto de protagonista durante o ADE desse ano, onde eles fizeram um dos lives mais elogiados de todos, no primeiro dia do Awakenings, Octave One está pronto para vir ao Brasil no Carnaval, aonde já possuem data confirmada no Warung Beach Club. 
*Atualização em 18/09/2017 – Octave One se prepara para retornar ao Brasil e fazer um LIVE na Tribaltech 2017, no dia 7 de outubro.

 
Em meio ao Amsterdam Dance Event, onde fizemos a cobertura este ano, encontramos um tempo na agenda concorrida dos irmãos Burden, para uma entrevista exclusiva e inspiradora. Eles nos receberam no quarto em que estavam hospedados no Dylan Hotel, um dos locais que recebeu a conferência na cidade holandesa. Foram muitas risadas, comentários sobre o Brasil, país que eles não vêem a hora de retornar, e, claro, um papo incrível sobre música, techno, Detroit, cena, visão de mundo. Confira abaixo! 
 

HOUSE MAG – O Octave One influenciou muito a cena global de house e techno nos últimos 20 anos. Vocês se veem como líderes e formadores de opinião hoje em dia?

Lenny – Nós não tentamos criar tendência, nós fazemos coisas das quais gostamos e não com um objetivo de soar de uma determinada maneira. Você pode ver isso mesmo pelos nossos instrumentos, nós nos apresentamos em formato live, com hardware – enquanto muita gente usa laptops e computadores, não nos preocupamos com essas mudanças. A coisa é sobre o que curtimos fazer, não sobre utilizar os últimos recursos.

Lawrence – Nós gostamos de criar, vamos ao estúdio, seguimos a nossa vibe e colocamos essas impressões no nosso som. Não há nenhum tipo de direcionamento específico ou objetivo a ser alcançado, tudo ocorre naturalmente. não estamos tentando liderar um movimento ou algo assim. Tentamos ser verdadeiros com a gente mesmo. 


HM – Por mais que vocês não sintam tanto essas mudanças tecnológicas, muita coisa mudou nas últimas décadas na música eletrônica. O que acham que ficou diferente desde que vocês começaram a tocar?

Lenny – Para ser honesto, uma das grandes mudanças é que o underground como era no passado não existe hoje – porque tudo que existia justamente era underground. No começo, era muito fácil perder dinheiro fazendo música, muitos clubes não eram rentáveis como hoje e não haviam se tornado o grande negócio que são atualmente. Claro que existem muitas músicas maravilhosas hoje em dia, mas as pessoas naquela época faziam música com o coração, pois não existia o jogo de mercado ainda.

Lawrence – Hoje em dia as pessoas vão para as festas com códigos de vestimentas, por exemplo. Ouvi até falar em um tal de “look do techno”. Isso não existia no passado, as pessoas iam dançar e ninguém se importava com as roupas que elas estavam usando. As pessoas me perguntam hoje: Você se importa com o “techno look”, estar sempre de preto e tals, e eu: “que diabos é isso??”. Nunca era sobre moda, mas sim somente sobre música.


HM – Mas vocês estão vestindo preto agora (risos).

Lawrance e Lenny – (muitas risadas). É, na verdade essas roupas têm sido o nosso uniforme nos últimos 20 anos. O preto sempre nos acompanhou, realmente, mas sempre foi natural… é, as coisas estão diferentes. Agora talvez se preocupem muito com isso.


HM – Hoje há menos pessoas interessadas somente na música então?

Lenny – Não, elas ainda estão lá. O que é diferente é que, quando começamos, não havia regras nem referências, era tudo novo e nós estávamos realmente iniciando tudo aquilo. Não existiam tantos estilos dentro do techno, por exemplo. Você era influenciado por algumas coisas, mas nunca copiava o que te influenciava porque queria fazer algo diferente e original.

Lawrence – Nós tínhamos muita liberdade, a gente fazia o que queria, era um tipo de liberdade bem real. Nós não ligávamos se havia uma cena de tecno, de house ou de disco: apenas criávamos nosso som sem muita preocupação de como ele iria soar.

oo23_by_marie_staggat_bw_500


HM – Atualmente é mais difícil ser original?

Lanny – Com certeza. Porque muita coisa já ocorreu na música eletrônica até aqui e há muitos estilos, discos, records e grupos que podem influenciar você. Nós, por exemplo, quando começamos, éramos influenciados por nove ou dez discos, nem todos de música eletrônica, eram muitos gêneros musicais. Hoje em dia muitos produtores focam exclusivamente em faixas de techno para produzir techno. Antes não existia isso de “o som do techno”, um software de techno… A tecnologia e softwares ainda estavam bem no começo, então o processo de fazer música era mais complicado. Hoje você compra tudo facilmente, como sintetizadores, samples e outros sons pré-feitos, o que contribuiu para existir tantas tracks que se parecem iguais. Os sons foram feitos por outras pessoas, então é difícil você aparecer com o seu próprio estilo. 


HM – Nós sempre falamos sobre como Detroit influenciou vocês e sobre como a geração de vocês – e Detroit – influenciou toda a cena. Como vocês acreditam que Detroit influencia as novas gerações hoje em dia? O que de mais novo está rolando por lá?

Lenny – O que é diferente foi como nós fomos influenciados. Nós frequentávamos o estúdio da Metroplex, essas coisas. Se você olhar para a produção local, como os novos estão produzindo, etc, ela hoje é bastante variada, existem muitos produtores de techno, no mundo inteiro. Para nós, estávamos criando o nosso próprio som e estilo. As oportunidades melhoraram, claro, mas as pessoas estão fazendo techno por todo o globo, a música está espalhada. Então, é difícil dizer o quanto Detroit ainda está influenciando os sons modernos. Mas se você puxar o som moderno para traz, você chega em Detroit. Mesmo que você ache que não está sendo influenciado pelo techno de Detroit, se você faz essa música atualmente, você está sim sendo influenciado.

 

HM – Vemos muitas influências de soul e funk no último disco de vocês, “Burn It Down”. Como as pistas reagiram a esse disco e como foi o processo de criação dele?

Lenny – Ele foi desenvolvido como parte de um LIVE show. Originalmente, quando íamos fazer um disco, o início era feito no estúdio e depois nós o testávamos na pista, tocando ao vivo. Hoje em dia esse processo é inverso: nós compomos para o live e depois nós montamos o disco. O novo álbum, que sai em novembro, foi feito da mesma forma, com tracks que experimentamos em nosso shows ao vivo nos últimos anos.


HM – Quais são as diferenças entre o último álbum e o novo, “Love by Machine”, que está sendo lançado agora?

Lawrence – As melodias são bem diferentes, você provavelmente pode dançar e ouvir as melodias, talvez seja mais melódico, pois você pode continuar ouvindo-o mesmo que você saia andando…

Lenny – Nos trouxemos um live show para o estúdio. Nós decidimos voltar às nossas raízes, do jeito que gravávamos as faixas antigas sem tanta tecnologia, computador, essa coisas. Começamos a gravar e tocar e assim nasceu o disco.


HM – Um dos maiores hits do Octave One é a música “Black Water” e nós amamos ela! Vocês podem falar um pouco sobre sua história e o que ela representa para vocês?

Lenny – Nós temos cinco irmãos e estávamos ensinando o nosso irmão mais novo como fazemos músicas, como a base das melodias, essas coisas. Na época estávamos trabalhando em diversos remix, um deles o “Jaguar” (DJ Rolando aka The Aztec Mystic), e ele estava formando o seu próprio estúdio. Nós o ensinamos sobre como construir melodias com certos equipamentos  Depois de darmos essas aulas, ele chegou com a melodia básica de “Black Water”. E nós pensamos: “SIM!! isso é uma boa melodia” (risos).


HM – O que ainda motiva vocês depois de tantos anos?

Lawrence e Lenny – Nós tentamos nos manter originais, para ser honesto. Isso é um dos motivos pelo qual nós incorporamos o nosso irmão mais novo ao grupo e ao processo de fazer música, para que ele possa trazer coisas novas e nós mostrarmos a ele que nós estamos fazendo algo que amamos. Dessa forma, nos mantermos sempre experimentando novas melodias, novos sons. Sem contar as experiências ao vivo, como tocar em locais diferentes para públicos públicos bem distintos, algo que agrega para a gente. A questão é sempre buscar coisas novas, novos desafios. E nós passamos muitos anos no estúdio até aparecer com esse novo live, somos praticamente uma nova banda.


HM – A última vez que vocês tocaram no Brasil foi em 2007 2005, em clubes que não existem mais, como o Lov.e. Vocês têm planos de voltar ao país? (a pergunta foi feita antes do anúnico da data do Warung).

Lawrence e Lenny – Sim, nós estamos definitivamente programando uma turnê mundial do novo álbum em 2017 e o Brasil está incluído nesse roteiro. Estamos tentando voltar ao Brasil há muito tempo, mas as agendas não estavam batendo. Queremos muito voltar a tocar no país mesmo e agora vai dar certo!


HM – Alguma impressão sobre a cena eletrônica brasileira?

Lawrence e Lenny –  Nossa referência é de muito tempo atrás, a gente lembra que nos divertimos muito. Imagino que as coisas estejam bem diferentes e maiores agora.


HM – Como nós estamos em Amsterdam, estou fazendo essas perguntas aos artistas que entrevistamos por aqui. Um dos temas do ADE deste ano foi sustentabilidade, mudanças sociais e inovação. Quão importante é para um DJ mostrar um posicionamento sobre esses assuntos para motivar pessoas? Vocês já disseram não a algum projeto devido às suas posições? Quão engajado nessas causas um artista deve ser?

Lenny – Eu acho que são escolhas pessoais. Para nós, e para muitos artistas também, nossa influência vem pela música e como a nossa música afeta as pessoas. Hoje em dia, com as redes sociais, muitos artistas podem dizer coisas sem filtros (eles não deveriam falar algumas coisas). Porque nós gravamos discos não significa que nossa opinião significa mais do que qualquer outra pessoa, porque não vale. Muitos artistas dizem coisas nas redes sociais e as pessoas ficam chocadas porque eles pensam assim; Eu penso que, voltando á música… música é mesmo o tipo de coisa que… nós músicos somos estranhos. Influenciar pessoas com o que você pensa eu penso que não é certo.

Lawrence – Com relação a nós, nós temos que ser honestos com relação ao que viemos viemos fazer na música. Nós não viemos para fazer nenhum ato político ou algo desse tipo. Era uma escape para nós, nós tínhamos que sentir algo. Nós viemos porque queríamos criar emoções por trás das tracks. E se alguém pega isso e adapta a uma situação é algo diferente. Nós tentamos sempre nos manter puros nesse sentido. Alguns artistas são bons em utilizar sua arte politicamente, isso os motiva, talvez algumas pessoas gostem de suas músicas por conta da sua visão de mundo e tal, além da forma como eles expressam sua música. Mas de um modo geral eu acredito que as pessoas gostem das músicas pela música em si, e não porque o artista se posiciona a favor ou contra o aborto, por exemplo.

oo28_by_marie_staggat_500_01


HM – O Brasil está passando por uma situação política conturbada, nós acabamos de passar por um processo de impeachment e há muita corrupção sendo investigada. Sentimos que as coisas no Brasil são piores do que em qualquer outro lugar. Como que vocês sentem a política no seu país hoje em dia?

Lawrence – Eu não me importo.

Lenny – Não estou dizendo que não me afeta. Mas acredito que as nossas atitudes é que interessam. Minhas opiniões e visões políticas ficam fora de jogo.


HM – ADE esse ano também está falando sobre novos gêneros e variedades musicais. O que foi mais impressionante que vocês viram ultimamente em termos de música?

Lawrence – A nova house, que está trazendo de volta aquela house mais tradicional. Eu fico realmente feliz em ver que as melodias estão de volta. Sentíamos muita falta de melodias, e elas são bem vindas novamente! 


HM – Quem, na opinião de vocês, teve um ano incrível? Pode nomear alguns artistas ou profissionais que se destacaram em 2016?

Lawrence e Lenny: Robert Hood, definitivamente! Está em um momento musical incrível. Ficamos felizes que ele esteja trazendo a sua filha para tocar, essa é a nova geração.

Fique por dentro