Por: Lucas Arnaud e André Arnaud
Essa semana fomos surpreendidos com uma notícia que desagradou os fãs da música eletrônica no Brasil: Luiz Eurico Klotz, o responsável por trazer o Tomorrowland ao país (além de ser sócio-fundador da agência Plus Talent) afirmou que não haverá a edição de 2017, conforme anunciamos em primeira mão. Acalmados os ânimos, podemos agora dissertar sobre a outra (e talvez principal) face de sua palestra em Fortaleza, já que nossa equipe esteve presente no dia. Iremos além dessa má notícia – para entendermos um pouco da genialidade por trás da execução desse magnifico festival. O título da palestra era “Por trás do Tomorrowland”, e nada mais justo que o palestrante seja, literalmente, o homem por trás do Tomorrowland.
A palestra ocorreu dia 22/11/2016 na Universidade de Fortaleza. Lá, Luiz nos mostrou a mudança da sociedade e dos interesses dos novos jovens (milleniais) e a renovação de toda a indústria do entretenimento pelo mundo – explicitando que o intuito das novas apostas da ID&T são tornar o frequentador não apenas um contemplador das atrações, mas um participante delas!
Ao nos explicar minuciosamente sobre como é executar o festival, Luiz trouxe alguns detalhes (e curiosidades!) interessantíssimos que valem a atenção.
Um dos primeiros pontos abordados por ele foi o Love Tomorrow, que é um projeto de caridade presente na Tomorrowland onde há contribuição financeira à organizações não governamentais. No Brasil, existiu a parceria com a Casa Zé Pretinho, que se utiliza da música para ajudar crianças carentes.
Depois, ele nos mostrou a Tomorrowland Life Bridge:

Quem vai na edição belga do festival pode notar uma ponte construída no parque público onde ocorre o evento. A organização utilizou-se desse espaço para compartilhar mensagens pagas feitas por frequentadores via internet. Todo o dinheiro utilizado foi doado às Nações Unidas (ONU), rendendo até uma visita de Ban Ki Moon (secretário geral da ONU).
Uma outra grande curiosidade: o compositor dos Hinos da Tomorrowland foi ninguém menos que Hans Zimmer, um dos maiores compositores de música clássica da atualidade, que trabalhou na trilha sonora de grandes filmes como Piratas do Caribe, Dark Knight, O Gladiador e até no game Call of Duty.
Ele também nos contou de modo minucioso como ocorreu o anúncio da Tomorrowland Brasil. Foi um momento memorável. Durante a Tomorrowland Bélgica 2014 (no último dia) foi organizado um evento simultâneo (que daria origem à brand “United”) em um parque público em São Paulo para o qual foram convidadas 10.000 pessoas (entretanto, milhares de pessoas se colocaram em volta da estrutura) para assistir a live stream dos sets de domingo. Eis que David Guetta anunciou durante seu set: “Brazil, Tomorrowland is coming for you!”.
Além dessas curiosidades, Luiz nos apresentou alguns desafios em relação à organização do festival, como: os diferentes momentos no “ciclo de vida” (“nascimento”e “desenvolvimento”) das edições do evento, a dificuldade de penetração da marca, as disputas de reputação e influência, a alocação de investimentos, a própria língua, a equipe interna, o diálogo com terceiros, o choque de culturas, entre outros.
Apesar de, notadamente, existirem diversos desafios para se organizar um festival desse porte, Luiz faz questão de destacar um problema muito específico: O “Custo Brasil”. Segundo ele, em nosso país, a dinâmica mercadológica e as legislações locais dificultam a realização dos eventos (vide caso Ultra). Algumas dificuldades demonstradas foram a recusa da Polícia Civil em montar um posto especializado no evento (pois isso supostamente aumentaria as ocorrências de crimes nas estatísticas do município) e a adoção de uma alíquota de arrecadação do município maior que o comum (ou seja, os políticos da região decidiram cobrar impostos por uma taxa maior que a utilizada normalmente). A conclusão é interessante: Luiz nos demonstra que o município aparenta querer que você desista do evento.
“Para fazer um evento no Brasil é necessário amor, coragem e querer MUITO” – Luiz Eurico Klotz
Com o intuito de nos dar uma noção do quão complexa é a organização do Tomorrowland, Luiz nos levou a um “passeio” pelos bastidores, revelando algumas características que passam despercebidas intencionalmente pelo frequentador, mas que estão presentes nos panos de fundo para nos proporcionar uma experiência mágica e fantástica.
Alguns desses elementos são: Uma equipe médica preparada e alocada por todo o festival, uma equipe apenas para o controle de riscos, uma equipe metereológica, um controle de som (verificando até o vazamento de som para a cidade), uma equipe de segurança interna e perimetral, uma equipe de controle de fluxo (proporcionando uma maior fluidez das pessoas nas trocas de palco, entre outras tarefas), um sistema de vigilância de alto potencial, além de um rígido controle acerca da comidas e bebidas vendidas.
Tudo isso para poder proporcionar segurança e conforto ao frequentador, sabendo que “shit happens”. Ele comentou, também, o incêndio ocorrido próximo ao local onde estava a Tomorrowland Brasil 2016 (durante o 2º dia) com o qual a própria organização teve que lidar, uma vez que o município dificultou o envio do corpo de bombeiros. Nesse dia (o 2º dia da TM BR 16), muitas pessoas tiveram seu acesso ao festival dificultado pelo trânsito (decorrente do incêndio). A Tomorrowland Brasil , elegantemente, chamou “apenas” Armin Van Buuren, Sunnery James e Ryan Marciano e W&W para um incrível e inédito b2b (ou seria um b2b2b?) que foi realizado depois do último set, ou seja, houve um set bônus surpresa! Foi o primeiro “after” no mainstage da história do Tomorrowland.
Outra curiosidade (que quase ninguém sabe) é que é possível monitorar toda atividade do frequentador pela sua pulseira. Onde se encontra, em quais palcos passou, por quanto tempo, o que consumiu e etc, proporcionando segurança ao frequentador e até um encontro caso haja um sumiço inesperado (carol?). Esse tipo de controle fez com que o caso de morte na Tomorrowland 2016 fosse considerado resultado de uma conduta imprudente do frequentador, segundo as informações levantadas pelo sistema de surveillance do festival.
Luiz nos mostrou que a imagem que importa na Tomorrowland é a do próprio festival, e não a dos patrocinadores e de outras marcas. Dessa forma, não se veem muitos banners ou ads em volta do festival, apenas quando essas marcas se incorporam ao mundo do evento e proporcionam experiências únicas aos frequentadores, como a piscina da Fusion e o bar da Skol Beats.
Para finalizar a palestra, recebemos a notícia de que não haveria Tomorrowland 2017. Entretanto, ele anunciou que receberemos alguns festivais menores não identificados, que ocorrerão pelo Brasil em abril, julho, setembro e dezembro. Logo mais falaremos aqui na Housemag sobre os mais cotados para vir.
Tivemos a oportunidade única de conversar com Luiz Eurico. Nessa entrevista exclusiva, ele nos conta muitos “segredos” que todo mundo suspeitava, mas não tinha certeza (além do cancelamento da TM BR 17). Confira abaixo:

HOUSE MAG – Como você se sente tendo trazido ao Brasil um dos maiores festivais do mundo (o Tomorroland)?
Luiz Eurico Klotz – Não é um trabalho indiviudal, é um trabalho de uma equipe muito grande. Desde o primeiro momento quando a gente começou a conversa com a empresa irmã, do mesmo grupo, o sentimento sempre foi de: ok, vamos trazer um festival dessas proporções, já fizemos outros festivais, mas esse tem outra escala. O time do planejamento é, desde o primeiro momento, composto por 15 pessoas. Durou 4 anos desde a conversa “vamos trazer ao Brasil” até a realização do evento, então é um sentimento em grupo de realização. É importante frizar: é um trabalho de muita gente.
HM – Como surgiu a ideia de fazer o festival belga no Brasil?
LEK – O brasileiro é extremamente ativo em mídias sociais, veja o caso do Orkut que até pouco tempo foi desligado. Quando o brasileiro entrou, ele dominou a mídia social, não aconteceu diferente com as mídias do Tomorrowlad da Bélgica. A brasileira é a nacionalidade mais presente tanto nessas mídias sociais quanto na tranmissão ao vivo do festival e só não conseguia levar mais brasileiros por causa da limitação dos ingressos. Você tem, mais ou menos, 3.000 brasileiros a cada edição, que conseguem o ingresso, mas você tem milhares e milhares que querem ir, é o número em todas as métricas de mídias sociais. Então, como o desejo do festival é ter um por continente, não é fazer em qualquer país, e vendo que já existia na Europa, na América do Norte, o próximo passo era a América do Sul antes de ir pra África e Ásia. A escolha do Brasil foi claramente natural.
HM – Pensando nesses continentes, como a Ásia, onde há notória expansão da cena eletrônica, algum planejamento?
LEK – Existem conversas, há o que se pensar, mas nada conclusivo.
HM – Você poderia falar um pouco sobre os desafios e conquistas em relação a sua experiência como gestor?
LEK – Bom, o desafio principal é trabalhar no Brasil. O Brasil não é um país e nem um ambiente propício para empreender, não só a questão tributária, burocrática, trabalhista, organização pública, isso não te deixa trabalhar/empreender, isso tudo te domina onde torna tudo aqui mais difícil, e você explicar isso pra um europeu de que tudo aqui é mais difícil eles ficam: mas e aí? O Brasil quer o festival ou não? Então o maior desafio é o Brasil.
HM – Como você projeta o futuro da Plus Talent e da organização de festivais no Brasil, no geral?
LEK – O que a gente tem que fazer agora é analisar o momento do Brasil, acertar a mão no tamanho do festival, no tipo de público e esperar que essa fase de recessão e contenção de despesas de todo mundo passe para que as pessoas possam se divertir de novo. Então, 2017 vai ser um ano de fazer festivais um pouco menores, tours um pouco menores e não pensar muito grande, porque o mercado infelizmente não comporta isso.
HM – É notório que a concentração artística eletrônica se encontra de forma mais massiva pelos Estados do Sudeste. Há alguma projeção de expansão para outros Estados pela área do Nordeste, por exemplo?
LEK –Já fizemos eventos aqui em Fortaleza, no Norte e Nordeste, a cena sempre cresce e logicamente, talvez por causa do mercado, ela vem depois da região Sul e Sudeste. Só existe um caminho: Esse segmento cresce e vai continuar crescendo então essa onda que teve pelo Sul e Sudeste vai chegar, na verdade já chegou, é só uma questão de consolidar mais o mercado.
HM – Surgiram alguns boatos que o último Tomorrowland Brasil havia sido alvo de um processo de inadimplência e que teria tido um baixo rendimento e até prejuízos, não tendo, inclusive, vendido todos os ingressos. Isso se confirma?
LEK – A grande verdade é a seguinte: Ele foi um evento deficitário, nós tivemos um período de renegociações com todos os fornecedores e estão todos pagos, 100%, não existe nada pendente. Sim, houve prejuízo, a questão é relacionada ao momento, valor médio do ticket não alcançado, patrocínio, custo alto, alta do dólar.
FIM
Agradecemos a Luiz pela disponibilidade em conversar conosco e pela brilhante palestra! Fizemos questão, nesse artigo, de expor o conteúdo engrandecedor compartilhado pelo palestrante, que nos mostrou que acontece muita coisa envolvendo aspectos econômicos, políticos (envolvendo interesse e burocracia) e sociais para que um festival colossal como o Tomorrowland ocorra do jeito que é: impecável!
