Carrot Green fala de influências étnicas, estéticas da música eletrônica, vinil e cena carioca


Por: 
Flávio Lerner. * Esta matéria é uma adaptação da entrevista de Flávio Lerner em seu site, o LOFT55 e foi publicada na House Mag impressa #44

Carrot Greens são os verdes da cenoura, isto é, aquelas plantinhas que vêm no topo do legume e que também são comestíveis. Já Carrot Green é a alcunha do projeto eletrônico do carioca Carlos Gualda, que mesmo assinando em inglês é um dos representantes da nossa dance music com cara de Brasil — ele mistura house, techno e disco com sonoridades étnicas do Brasil, do Oriente Médio e da África.

O Carlos começou na música com uma banda de rock chamada Casebre, que ele ainda mantém sem muito compromisso, e foi lá por 2007 e 2008 que começou a discotecar e, posteriormente, se aventurar na produção musical. Hoje, depois da experiência na Red Bull Music Academy de 2013, é um nome sólido da cena eletrônica alternativa brasileira, intercalando as gigs e as produções com trilhas sonoras e trabalhos pra TV. Abaixo, você confere uma edição do papo que bati com ele para o LOFT55.


Em que momento você começou a botar essas influências de macumba, capoeira e música regionalista brasileira em sua música? Da onde vieram essas ideias?

Não me lembro ao certo, mas acho que teve a ver com a VOODOOHOP e o psilosamples. Aprendi muito com eles, tive ideias e nos tornamos parceiros. As primeiras vezes que ouvi essa mescla, me tocou de forma diferente. Desesterilizou a música eletrônica de certa forma, que eu sempre tinha visto como algo muito europeu.

 

Eu tenho a impressão que artistas como você, psilosamples, Selvagem, Fatnotronic são meio escanteados no Brasil. Você vê esse lance de fazer um som mais étnico e ensolarado marginalizado no nosso país?

Acho que marginalizado só pela cena mainstream, como alguns eventos que são completamente vendidos, mas tentam se passar por algo inovador e fomentador da cena, quando na verdade propagam velhos valores de uma galera provinciana que não está muito aberta pro que tá rolando de novo.

 

Mas em Porto Alegre, por exemplo, mesmo no cenário considerado underground a gente vê uma preferência enorme por techno reto/dark…

Cara, eu tô tocando muito techno misturado com disco. Neguinho fica louco! Dá pra misturar tudo, né? Tem cara de techno que só toca techno, o que me faz chamá-lo de limitado. Porque eu gosto de música, não de um estilo.

 

E você não acha que rola um complexo de vira-lata também? Da galera só querer imitar europeu e dar pouco valor pras coisas daqui…

Difícil julgar assim. Certo que rola, mas não sei se o problema é só esse. Eu acho a galera muito preguiçosa no geral, faltando gana de fazer a parada com dedicação máxima… A maioria das pessoas considera música um hobby ou passatempo. Não vejo problema num brasileiro fazendo techno europeu, só tem que fazer bem feito.

 

Achei interessante que o som que você fez com os caras da Selvagem saiu distante do que cada um de vocês faz em seus projetos particulares. O que você achou desse resultado?

Achei ótimo, tô super feliz com o vinil. Fomos nos conhecendo e vendo afinidades, ambos abertos a construir parcerias com gente que tem a ver. Então acho que o clichê se aplica, foi bastante natural. E estamos com mais músicas no forno…

 

Você é um cara que lança a grande maioria do que produz exclusivo em vinil. Não acaba sendo um pouco inacessível pra quem só compra ou toca digital?

Acho que não, quem quiser tocar vai dar um jeito, gravar o vinil, piratear de internet. Algumas coisas são exclusivas em vinil, outras saem em disco e depois em digital, como será o caso do meu EP Dança das Crianças, que tá saindo em brevíssimo pelo The Magic Movement. O disco é algo pra posteridade: vinil fica pros anais da história, MP3 acaba deletado de um HD qualquer… Também vejo como algo pra diferenciar dos milhões de releases fuleiros que saem no Beatport diariamente. Pra se ter música em vinil são necessários tempo e energia investidos, não simplesmente fazer um upload e ter um novo lançamento no dia seguinte.

Você pode ler esta matéria na íntegra aqui.

 

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