Os clubs europeus estão morrendo


Por: Felipe Tiradentes – matéria publicada na edição 45 da House Mag impressa.

Desde o início da última década, os festivais de música se firmaram de vez na cultura pop. Crescendo em quantidade, cifras e relevância, esses eventos definitivamente chegaram ao mainstream. E não vieram sozinhos, pois trouxeram consigo nomes importantes e marcas que impulsionam o turismo e a economia, através de uma experiência muitas vezes inesquecível para seus frequentadores.

Por outro lado, a partir do início do ano passado a imprensa especializada e alguns grandes veículos internacionais vêm dando destaque ao fato de que um número significativo de clubs (até então considerados como apoiadores desses eventos) terem fechado. A BBC recentemente publicou um artigo apresentando dados que considera alarmantes: entre 2005 e 2015 o número de casas noturnas no Reino Unido reduziu de 3.144 para 1.733, uma queda de 45%. Na Holanda, país onde existem mais festivais do que dias do ano, esse número caiu 38% na última década, e muitos dos donos culpam o crescimento em popularidade dos eventos de verão.

Mas responsabilizar pura e simplesmente o boom dos festivais pelo declínio dos clubs é uma conclusão simplista. Mesmo que esse fator possa ser importante, diversos outros também influenciam: desde mudanças na regulamentação das casas noturnas até a diminuição na venda de bebidas por conta do aumento do consumo de drogas, passando pelo crescimento do cachê dos DJs, pelo movimento de gentrificação, que faz com que os aluguéis subam, a preferência do público por outros formatos e espaços, entre vários outros.

Diversos estudos demonstram que os membros da Geração Y — aqueles que hoje têm idade entre 21 e 38 anos — estão se distanciando dos clubs. Uma pesquisa da ULI/Lachman Associates com a mesma faixa etária concluiu que 60% dos entrevistados dizem frequentá-los, mas apenas 25% afirmam ir mais de uma vez ao mês. A videomaker Sara Pisos, de 25 anos, mora na Holanda e diz que hoje vai menos a clubs do que antes: “Esses espaços trazem sempre as mesmas coisas, pessoas e ambientes, enquanto o festival é um mundo novo, único e esporádico. Prefiro gastar um pouco mais e ver várias grandes atrações em um dia do que pagar menos diversas vezes por noites normais”.

No Brasil, a situação ainda é um pouco diferente. Cidades como Rio de Janeiro apresentam poucas opções de casas noturnas fora do circuito “comercial”, e o fortalecimento da cena ainda é visto com bons olhos. Simeia Godoy — uma das cabeças por traz da Fosfobox — vê os festivais como algo que pode trazer benefícios ao cenário local: “Pra nós é quase indiferente, pois tentamos sempre criar alternativas menos mainstream a esses eventos. No final a concorrência só fortifica, pois dá amplitude à cena”.

Entretanto, o mercado está em constante mudança e busca sempre novas opções. Em Londres, as festas em warehouses (armazéns) são o que há de mais cool na cidade, enquanto no Rio e em São Paulo, eventos em espaços alternativos também estão no seu auge. O carioca Jose Hesse, nome por trás do live KinKid e membro do coletivo/label Domina, também vê benefícios em explorar esses espaços. “Os clubs foram e são essenciais para a cena de um modo geral, mas entendo que há certa limitação musical, talvez pela obrigação de se tornarem rentáveis e terem o lado business mais aguçado que o artístico. Vejo que as festas que frequento ou me apresento não são realizadas em clubs, o que possibilita uma liberdade maior da exploração da arte propriamente dita. Quase um apelo ao incomum. E assim ganham todos: produtores, artistas, público.”

Com formato desgastado, dificuldades para se tornarem atrativos e renegados pela primeira vez à “pista 2” da música eletrônica mundial, esses estabelecimentos passam por sua pior fase desde o surgimento do techno. Se o interesse diminuiu, é preciso que saibam se reinventar sem perder a essência. Ou apenas sobreviver, apostar que a tendência passe, que o ciclo evolua e os clubs voltem a prosperar. 

Fique por dentro