O holandês Nachtbraker é o que podemos chamar de uma das novas sensações da música eletrônica na Europa. O jovem de apenas 24 anos viu sua vida mudar completamente por causa da música nas últimas temporadas. Vivendo atualmente em Amsterdam, uma das capitais da dance music do mundo, ele trabalha e lança por seu próprio selo, o Quartet Series, e também pelas renomadas Heist Records e Dirt Crew. Recentemente participou de uma gravação para o Boiler Room e nesse fim de semana chega ao Brasil pela primeira vez, para gigs na moove em Curitiba e no Sounds in da City em Floripa. Trocamos uma ideia com ele, que se mostrou bastante maduro nas respostas. Confira abaixo!
NACHTBRAKER – Eu comecei a trabalhar no conceito de uma label há 2 anos e ao mesmo tempo em que trabalhava na concepção desta label, juntava material para poder lançar. Na verdade, tudo começou quando quis colocar a track do Gnork e do Saine no mesmo disco, então tive a ideia a partir da combinação destes dois estilos que eu realmente gostava. No lado A mais house e o lado B um estilo mais dark.
NACHTBRAKER – Então, eu não posso falar sobre todo o cenário underground da Holanda, porque eu vivi e toquei predominantemente em Amsterdam. Sobre Amsterdam, eu posso dizer, que de 7 ou 8 anos para cá, a house music vem crescendo muito entre os jovens, e eu me refiro a house music em geral. No começo house music tinha influência apenas de tech house e agora podemos ver bastante deep house e disco. A razão de ter tantas festas de house e techno em Amsterdam, é porque a cultura underground se tornou muito popular entre os estudantes. São principalmente pessoas altamente educadas, que escutam música e participam da cena underground. Isso é uma coisa boa e ruim ao mesmo tempo. Por um lado essa nova galera não é tão afim assim de música, e acaba indo pela curtição e para sair com os amigos, o que não é uma coisa ruim, o problema é que esta parcela de pessoas prefere músicas mais populares e previsíveis, ao invés de se aventurar em uma atmosfera mais peculiar, sem contar que essas pessoas acabam não ficando entretidas por sets longos e envolventes. Eles precisam de músicas impactantes, e a track seguinte tem que ser mais alta e mais divertida do que as anteriores. Consequentemente aconteceu a ressurreição do disco nas pistas de dança de Amsterdam. O DJ pode mixar rapidamente e proporcionar um clima alegre que é irresistivelmente e dançante.
A coisa boa é que esse público novo gasta dinheiro, comprando discos e comparecendo em festas e festivais, e graças a isso, muitos artistas novos e talentosos podem se desenvolver com mais facilidade, novas iniciativas começam e conseguem se manter. Cada vez mais DJs são capazes de manter sua carreira full time, e graças a isso eles poderão se aprimorar e se tornarem grandes expoentes da música eletrônica.
Eu sinto o mesmo sobre o EDM, obviamente, a maior parte da audiência não irá curtir a música underground, mas sempre irão existir pessoas que chegaram em casa remoendo em suas cabeças se existe mais dentro da dance music do que fogos de artificio e shows de pessoas jogando bolo na platéia. Eu também não gostei da minha primeira taça de vinho, ou minha primeira lata de cerveja, comecei bebendo Smirnoff Ice.
Enfim, nós com certeza não podemos reclamar de Amsterdam. Me sinto abençoado por viver numa cidade tão conectada com a música eletrônica. Acredito que outras cidades holandesas, como Rotterdam, Utrecht e Groningen, estão aproveitando um cenário próspero e vibrante do EDM.
NACHTBRAKER – Provavelmente todo produtor irá falar que eles deixam a criatividade fluir, e que nunca segue as tendências, eu direi a mesma coisa, sempre irei tentar deixar a criatividade fluir, o problema é que no final, somos influenciados pela cultura popular. Quando você está fazendo música para as pistas de dança, muito provavelmente você irá conscientemente ou inconscientemente ser influenciado pela massa. Produtores que miram as pistas, irão sempre estar procurando um gatilho para impulsionar a galera até lá. No final tudo é fortemente ligado ao que está funcionando naquele momento. Sem contar que as pessoas são influenciadas por músicas que elas escutam com frequência, faixas que eles gostam ou não. Eu sempre comparo com a música que eu escutava quando era pequeno nos feriados no carro dos meus pais, nós costumávamos ouvir o mesmo CDs sempre e eu achava a música uma merda. Agora me encontro cantarolado no mesmo ritmo quando escuto essas músicas, nós temos tendência de curtir aquilo que se repete a nossa volta, embora isso seja um efeito de longo prazo, que vai se mostrar efetivo digamos…. 10 anos depois. Acredito que isso possa influenciar no nosso gosto musical, pessoas são sucetiveis a isso, e produtores também são pessoas, logo, não tem jeito de não ser influenciado pelas tendências… a não ser que você seja um produtor que vive na solidão, em algum lugar longe e excluído da sociedade.
NACHTBRAKER – Tudo começou com a Heist Records, onde eu fiz meu primeiro 12’ (HEIST004, Gute Laune EP) lá em Março de 2014. Eu contratei o Detroit Swindle (donos do label) para uma festa que eu estava promovendo com alguns amigos no começo de 2013, foi uma das primeiras gigs que eles fizeram como Detroit Swindle. Me mantive em contato com Lars e Maarten, e nos tronamos amigos, sempre compartilhava minhas músicas com eles, e assim que eles fundaram a label, eu fiquei muito contente de poder fazer um EP com eles. Eu não tinha ideia de que Heist se tornaria tão grande e respeitada como é hoje em dia. Sorte a minha (risos). Logo depois do meu release com eles, conheci Peter (big boss da Dirt Crew) em uma festa, onde Maarten e Lars estavam tocando em Amsterdam. Falei para ele que amava sua label e gostaria de enviar alguns demos. Enviei o material na segunda-feira e recebi a resposta na terça-feira com cinco títulos de tracks e falando que gostariam de fazer um EP comigo.
NACHTBRAKER – Eu e Frits Wentink já conversamos sobre algumas vezes, e adoraríamos fazer um long b2b set algum dia. Acho que nosso som é muito parecido e geralmente gostamos das mesmas coisas, mas é diferente, então isso seria muito interessante! Isso provavelmente irá acontecer em um futuro próximo. Na minha opinião ele é um dos caras mais interessantes da cena, com um som único e totalmente diferente. Quanto a uma collab, eu realmente não sei. Costumo trabalhar sozinho e prefiro assim, não sou um grande fã de remixes também. [risos]
NACHTBRAKER – Eu comecei a tocar com vinil há pouco tempo, comecei a comprar e tocar com vinil em 2013, um pouco antes do meu primeiro 12’ ser lançado. Antes disso eu não tinha dinheiro para comprar um toca discos e a maioria das músicas que tocava só estavam disponível digitalmente. No entanto, meu gosto musical mudou com o passar do tempo e eu comecei a me afeiçoar por músicas que se encontrava apenas em vinil, sem contar que meu flatmate havia uma coleção de discos gigante e eu acabei me infectado pelo virus do vinil, e agora pode-se dizer que eu sou viciado nisso[risos]. Eu compro muito, e não possuo espaço no meu pequeno apartamento em Amsterdam. Agora, costumo tocar 70-80% do tempo com vinil, é mais divertido e desafiador utilizar o toca-discos ao invés de uma CDJ. Também é realmente muito difícil comprar um disco novo e não tocá-lo.. A sensação de tocar com vinil é algo que eu nunca me canso.
NACHTBRAKER – Não necessariamente, varia bastante, e eu ainda não achei um “ritual” que me faça ser criativo instantaneamente. Tento ficar relaxado enquanto produzo e a melhor maneira de fazer isso é se desconectar do mundo, e com isso me refiro principalmente ao mundo digital.
NACHTBRAKER – Agora eu tenho 24 anos, então terei 34 anos, vejamos… Eu espero que minha label tenha crescido e se tornado uma instituição muito respeitada. Espero também estar em turnê pelo mundo tocando minha música, receber bem e poder prover para uma família também não seria uma coisa ruim [risos].
