De Rosário a Berlim: 5 perguntas para Nico Purman sobre produção, seu novo EP, carreira e cena

Por: Gabriela Loschi
Tradução: Flávio Lerner 

Da Argentina para a Alemanha; essencialmente, essa é a trajetória do produtor de techno Nico Purman, que nasceu em Rosário mas hoje é residente de Berlim. Aos 42 anos, tem lançamentos que já completaram uma década — por selos como Crosstown Rebels, Mule Electronic, Curle, Modelisme e Art Of Memory — quando ainda atuava em sua terra natal. Foi graças às gigs pela label berlinense Vakant, porém, que conseguiu estabelecer-se na Europa, onde reside desde 2010.

Artista influenciado majoritariamente pela acid house dos anos 80 e pelas ondas pós-punk e new wave de bandas como Joy Division, The Cure e Depeche Mode, teve seu último EP, Pattern Recognition, lançado em vinil na semana passada — na semana que vem, o disco sai digitalmente. À House Mag, contou um pouco sobre seu passado, suas produções e a tensa situação da música eletrônica na Argentina. Confira:

 

HOUSE MAG: Olá Nico! É um prazer falar com você. Você cresceu em Rosário, na Argentina. Como era a cena na época, e o que o levou a entrar na música eletrônica?

Nico Purman: Eu comecei a discotecar com meu irmão. Juntávamos amigos em casa, cada um virando suas faixas, um depois do outro, como num jogo. Passávamos muitas horas mixando e ouvindo como os outros faziam.

Em Rosário, no fim dos anos 90, tinha um club chamado El Reino. Era um lugar especial, mas não durou por muito tempo. As coisas começaram a crescer nos anos 2000, com alguns eventos grandes, mas o que eu achei realmente interessante foi quando abriu El Sotano, por volta de 2003, que manteve aquela vibe underground que havia se perdido. Eu gosto muito da atmosfera dos clubs pequenos que focam na música e têm um público fiel.


HM: Quando você se mudou pra Berlim e como você e sua música evoluíram depois da mudança?

NP: Berlim não estava no meu radar até 2008, quando lancei meu primeiro EP pela Vakant. Fui convidado pelo selo pra tocar na Watergate, que naquela época era uma das melhores festas pra tocar na capital alemã. A partir dali, comecei a viajar duas ou três vezes por ano pra tocar na Europa, até eu me mudar em 2010.

A música evoluiu naturalmente, mas não por causa da cidade. Acho que foi mais pela pesquisa e absorção de todo tipo de influências. Sou bastante aberto musicalmente, e é por isso que cada EP leva um som ou uma inspiração diferente. Essa variação também depende mais das ferramentas que eu uso pra produzir do que da cidade em que eu estou.


HM: Você tem lançado por selos importantes e diferentes entre si, como Crosstown Rebels, e a Vakant é agora a sua casa. Qual a importância de cada uma dessas labels na sua carreira?

NP: Cada lançamento tem sido muito importante pra mim, assim como cada selo em que saíram essas músicas, porque eles sempre me deram suporte de alguma forma. Cada release me ensinou a fazer o próximo, de forma melhor ou diferente.

A Vakant foi a label pela qual eu lancei a maioria dos meus sons, assim como toquei em diversas festas deles, em Berlim e na Europa.


HM: Pela Vakant você está lançando agora o EP Pattern Recognition, o qual você disse ser o seu trabalho mais descompromissado. Conte-nos um pouco sobre o processo de produção desse disco.

NP: Acho que é o meu lançamento mais sério até hoje, e cada track tem um feeling diferente. A produção também foi diferente pras três faixas, mas tem uma linha que conecta todo o EP. O lado A é um techno moderno bastante eletrônico, tecnológico; é groovado, mas sombrio e minimalista. Fiz a faixa em 2015 e a mixei em janeiro, quando estava muito frio e nevando. Agora é verão e a faixa está sendo lançada.

O lado B1, “Fold”, é um pouco diferente. Também foi feita em 2015, mas a B2 é um electro de 2014, que eu achei no meu HD depois de lançar meu EP duplo pela AOM. Então esse EP pela Vakant é uma continuação da jornada daquele. Os três EPs poderiam até ser considerados uma trilogia, porque é a primeira vez que eu empilho um lançamento logo depois do outro.


HM: Como argentino, o que você tem achado sobre
essa situação instaurada depois das mortes no Time Warp? Como você acha que nós — clubbers, governos e donos de clubs e promoters — podemos trabalhar para reduzir os danos do consumo de drogas?

NP: É uma questão complicada. Foi bem triste ler a notícia sobre aquelas mortes. No momento há uma demonização da música eletrônica, mas ninguém está pensando no que pode fazer pra evitar esses problemas. As pessoas têm que ser mais responsáveis. Às vezes, em eventos grandes, as coisas saem do controle e terminam em tragédia. Na Suiça, por exemplo, pra minimizar os danos, eles testam a qualidade das drogas que as pessoas estão consumindo [política de redução de danos, da qual já falamos aqui]. Eles testam sempre, a fim de evitar problemas mais sérios.

 

 

 

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