* Matéria publicada na House Mag impressa número 43, em 2015, agora publicada na íntegra no site
Por: Gabriela Loschi
Fotos: Divulgação Sunwaves
Em 2006, enquanto Raresh fazia o warm-up de uma festa em Bucareste, o headliner não só o observava, como se apaixonava pelo feeling musical daquele garoto até então desconhecido. Ninguém ali sonhava que aquele evento seria um divisor de águas da cena romena. E o mundo não imaginava que esse país quase esquecido do leste europeu era um terreno fértil de talentos aptos a desenvolver um som intrínseco, com vários níveis de interpretação. O artista em questão era Ricardo Villalobos, que levou Raresh pra tocar em clubes como Cocoon, em Ibiza, e ajudou a introduzir os romenos ao mundo.

Em 2007, Raresh, Rhadoo e Petre Inspirescu fundaram o selo [a:rpia:r]. “Foi o motor de tudo, profissionalizou a cena, surgiram novas festas e clubes, novos artistas, o público entendeu a cultura. Nunca imaginamos que esse novo estilo de house e minimal teria tanta repercussão”, analisa Zota Catalin, fundador da festa Local Gathering e membro da Sunrise, que faz o Sunwaves. A cena romena nunca mais foi a mesma.

Houve grande hype em torno dos romenos nos últimos anos, no universo underground. Há quem não considere, no entanto, o som deles um sub-gênero. “São meus amigos, bons artistas, mas não mudaram nem criaram nada”, afirmou Pietro De Lisi, do System of Survival, em um fórum online da Meoko. O próprio Raresh não admite que exista um tipo específico de som romeno. Mas artistas como Valentino Kanzyani são categóricos: “Eles criaram um novo estilo, que alguns chamam de house romeno, o que for, e influenciam o mundo e os jovens de lá, que poderiam estar produzindo EDM, comercial. Eles são incríveis, não se importam com dinheiro. Amam a música e constroem algo consistente, duradouro”, confessou o artista esloveno que não perde um Sunwaves, seja pra tocar ou pra curtir.

É um estilo tão peculiar quanto a falta de tato dos artistas com imprensa e marketing. Eles não gostam de entrevistas e não interagem em redes sociais. O negócio deles é a música. Mesmo assim, receberam muito bem a House Mag e nossos amigos brasileiros.

O SUNWAVES
O Sunwaves acontece duas vezes ao ano, desde 2007 na badalada praia de Mamaia, uma península em torno de três horas da capital. A edição de verão é em agosto e em 2016 foi de 14 a 16. É muito mais quente e maior: 16 mil pessoas, seis palcos e mais artistas grandes, como Richie Hawtin, Dubfire, John Digweed, Jamie Jones. Chris Liebing, Pan Pot e Mind Against.
Visitamos a edição de maio de 2015 (Sunwaves 17), mais intimista, mas que também conta com nomes super consagrados do techno e house mundial como Carl Cox, Marco Carola, Tale of Us, Nastia, Lee Burrige… Eles conseguem misturar com maestria, em ambas as edições, o poder e o encanto dos artistas locais com o peso dos maiores nomes de apelo global. Foram três palcos (porque o quarto sofreu com a ventania e não pôde ser ligado, sendo seus artistas distribuídos entre os outros que “sobraram”), quatro dias e um super after-party oficial de dois dias na tenda da praia

Mas antes de seguirmos pra lá, paramos por alguns dias em Bucareste, a encantadora capital romena que vale muito a pena conhecer – ainda mais se você é daqueles apaixonados por viagem e lugares novos- , apesar de não ser um destino frequentemente lembrado por nós. Mergulhamos em sua cultura milenar, passeamos pelos prédios ostensivos que não deixam ninguém esquecer que a Romênia foi um dos últimos países comunistas a se tornar capitalista, visitamos parques supreendentes como o Herăstrău Park, museus fofíssimos como o Village Museum e tomamos doses extras dos ares e da língua romena.

Além de passear e turistar um pouco, ali em Bucareste nos encontramos pela primeira vez com o pessoal do festival e alguns artistas que tocariam. Tivemos um jantar com o crew romeno da Sunrise e outros profissionais da cena (da Bélgica, Alemanha, Espanha e nós, do Brasil) no Caru`cu bere, restaurante tradicional mais antigo de Bucareste.

Sentamos em uma entrada mais privada com uma mesa grande (o restaurante é enorme). Bebemos cerveja, alguns shots, conversamos e fumamos – na Romênia pode-se fumar dentro dos locais, inclusive restaurantes. Ordenamos a comida (Ahh, a culinária romena é deliciosa e sofre influências das diversas invasões sofridas pelo país, então há traços da comida turca, alemã, italiana, etc). Assim que chegou, começamos a ouvir um mix de ritmos romenos com folk e flamenco, embalando uma dança cigana no centro do prédio centenário. Deixamos a comida de lado para assistir. Em outro canto do salão estava Luciano, que é enlouquecido pelo Sunwaves e aproveitou o momento para fazer uma festa da Cadenza na Romênia, antes de seguir para o festival com seus artistas, apenas pra curtir, já que eles não iriam tocar.
O artista espanhol também se deixou levar por aquele som no restaurante. Aquele som! O primeiro “som romeno” que nos hipnotizou, em nossa última noite na capital antes de seguirmos para a costa. Estávamos imersos na gastronomia e na cultura romena, que tem o pop, o rock e a música eletrônica comercial dominando a maioria dos ouvidos no país. Mas nenhum desses gêneros musicais (a não ser pontualmente o house mainstream de Inna e Edward Maya – lembra do hit “Stereo Love”?) levou o nome da Romênia tão longe (e ganhou tanto respeito), dentro de suas devidas cenas, quanto o que vivenciaríamos no dia seguinte.
O que vivenciaríamos no dia seguinte é o que é chamado dentro da música eletrônica de “som romeno”, “techno, house, mínimal, microhouse romeno” – como é difícil caractegorizar um som, não é mesmo? Ainda mais um som tão peculiar, criado a partir de múltiplas referências e que passou a influenciar artistas no mundo inteiro. Pegamos um trem em Bucareste e viajamos 4 horas para, mais do que o som, vivenciar a cultura especial criada por eles. Fomos parar naquela praia chamada Mamaia, em Constanta (leste da Romênia).
Ao chegar no Sunwaves, entendemos toda a magia do festival: À tarde o sol aparece entre as tendas e as ondas do mar são pano de fundo de uma galera que dança com pé na areia no frio, ou se aquece nas tendas internas.

“É o melhor festival desse estilo, até pra tocar”, afirma Kanzyani, que tocou em duas pistas esse ano, “o público entende a música. Podemos testar novas frequências”. A pista externa lembrava um túnel de cores e aberturas para ver o mar e a praia. Ficamos mais ali e no palco dos romenos interno, onde Matei Tulbure abriu para o trio do RPR Soundsystem trabalhar suas tracks longas e exclusivas. Aquela mistura de minimal, techno, house, dub, microhouse, de vibe obscura, vocais intrigantes, basslines profundos e grooves hipnotizantes, em um soundsystem apropriado, forma uma atmosfera incrivelmente única.

Os romenos também criaram uma nova forma de tocar: sets longos, repletos de faixas não lançadas, prioritariamente em vinil. “Os romenos são mestres. É um festival de música sofisticada, outro nível. Não é sobre mãos pra cima, e sim sobre olhos fechados. Estimula novas formas de ouvir e dançar”, nos contou tINI, que também não saiu da pista!

Durante todos os dias a artista alemã andou com o seu case procurando uma brecha para tocar – sim, ela estava escalada, mas ao mesmo tempo em que o Sunwaves cita em qual palco cada artista vai tocar, ele deixa os horários em aberto. E ali, tudo pode acontecer. A espontaneidade e a cumplicidade formada entre artistas e party-people é algo raro em qualquer outro lugar.

E foi nesse embalo que, no palco principal, Marco Carola “mitou” ao tocar por 24h seguidas.
Ao mesmo tempo em que os fãs curtiram sua missão quase sem fim, isso impediu que artistas como a tINI, tocassem. “Mas tudo bem, eu amo esse festival e viria mesmo sem estar no line up, já que tracks como “Evar”, do Petre Inspirescu sempre me inspiraram”, se conforma uma das artistas mais legais da cena – e que eu particularmente queria muito ter visto tocar no Sunwaves, mas, não foi dessa vez.
E ainda tinha um pessoal de primeiríssima linha para curtimos: Vera, Zip, Alexandra, Barac, Dubtil, Valentino Kanzyani, Petre Inspirescu… todos esses tocando ali fora, na tenda beira mar. Que time! É muito difícil dizer qual deles foi melhor.
No palco principal, além do Carola, tocaram Carl Cox, Tale of Us, Craig Richards, Lee Burridge, Nastia. Os meninos do Tale of Us, por sinal, nos confessaram que esse é um dos festivais preferidos e mais queridos da vida deles, que eles vão desde a primeira edição.

Mas, como já disse anteriormente, estava lá para curtir a Romênia e adentrar na cultura musical criada por esses personagens tão singulares da nossa indústria. Eu praticamente não saí na pista de dentro dos romenos. Primeiro foi Matei Tulbure abrindo para o trio do RPR Soundsystem: Rhadoo, Raresh e Petre Inspirescu fazem você dançar de olhos fechados e levantar as mãos em momentos de euforia introspectiva.
Você não conhece a maioria das faixas colocadas no vinil daquele trio, e ali o que o público quer é novidade, é se entregar para a pesquisa musical apurada dos caras que são a maior razão de grande parte das pessoas estarem lá. Foi pra eles e para os artistas que os inspiram e são inspirados por eles que eu viajei até lá. E eles sabem disso, fazendo o papel essencial de apresentar música nova e boa à multidão mesclando com seus clássicos que, sim, queremos ve-los tocar! Todas as músicas que gostamos hehe.

Petre é de estatura baixa e domina os decks como poucos, toca um som animado, ainda que intimista como todos eles. Raresh joga o cabelo liso enquanto se diverte fazendo gestos para o público; Rhadoo nos presenteia com a sua seriedade e batidas dançantes, um pouco mais vigorosas. O sol nasce e começamos a enxergar os sorrisos estampados na cara das pessoas que, perdidas no tempo e no espaço, apenas curtiam ao máximo aquela enxurrada de feelings. Algumas tracks no meio dos long sets, cuja evolução musical definitivamente aflige aos mais ansiosos, eram possíveis de ser reconhecidas:
É difícil distinguir o dia 1 do dia 2, do dia 3, já que ali, a qualquer momento (qualquer mesmo), as tendas estavam lotadas de artistas bons e você se acostuma a ver o dia clarear e permanecer ali por boas horas durante as tardes e noites. O tempo se mistura. Tinha hora que o corpo já não aguentava mais e o sono era inevitável. Hora de voltar para o hotel e perder alguém do line, mas, fazer o quê, recarregar as energias também era importante.

Importante para aguentar, por exemplo, um set de 14 horas do Ricardo Villalobos. Isso mesmo, ele não bateu as 24h do Carola, mas, vou te contar, 14h dançando na pista sem parar é MUITA coisa. Porém, ele conseguiu. Nós ficamos. O mestre e padrinho dos romenos pode ter seus dias ruins, mas ali, no Sunwaves, dizem as más línguas que ele está sempre bem inspirado. Foi o que eu pude confirmar com meus próprios pés dancantes. Villa fez um set variado e divertido, passeando por muitos gêneros, dos seus clássicos dos anos 2000 aos clássicos do disco, do mínimal ao techno.
Pode falar o que for, mas pra mim o momento mais marcante do set foi quando ele tocou Dexter, por volta do meio dia – e ele já estava tocando há umas boas 7h. Construção perfeita, momento chave para soltar um mega clássico. Arrepios pelo corpo. Emoção de encher os olhos de lágrimas. Não, eu não enjoo dessa música e a forma como ela foi apresentada, ali, naquele lugar, com aquela atmosfera (encaixe absoluto), naquele horário, com aquela virada sensacional… eu deixo vocês mesmo julgarem com esse vídeo amador que encontrei no Youtube – apesar de saber que um momento em uma pista mágica não pode ser substituído por um vídeo feito por alguma alma paciente ali no meio, mas… vale:
Ele não segurou o tempo inteiro sozinho. Antes dele o Praslea, grande artista romeno, já estava tocando há umas 3h, aí entrou a super talentosa e carismática Sonja Moonear colocando toda a sua sabedoria e excelência em um set impecável de umas 2h antes do Ricardo chegar e assumir as turntables. Após algum tempo (quem é que sabe quanto, risos), Praslea e Sonja deram as caras novamente e entendemos: Wow! Três artitas maravilhosos revezariam os decks durante sabe-se lá quanto tempo. Ninguém imaginava quanto, mas só foi… Sintonia perfeita durante as próximas 14h. Ficamos até desligar o som. Não só a gente. Luciano e toda a sua crew da Cadenza se divertiam atrás do palco, bem como diversos outros artistas (como a Nastia, Terje Bakke e Felipe Valenzuela) e pessoas “normais” de todas as partes do mundo que ali só queriam dançar.
Que experiência! Aconselho a todos os que desejam se banhar com sonoridades que muitas vezes testam a sua paciência. Mas existe explosão também, principalmente no palco principal. Tem para todos (os verdadeiros amantes do techno). Apesar de toda a seriedade, os artistas preferem se manter simples e protegidos, a parte de qualquer polêmica, focados na música e não na exposição. E é assim que eles alimentam a cena que criaram. E o maior marketing a favor deles é a qualidade e a consistência sonora. Como disse a tINI: “Talvez o estilo Romeno, ou como quer que chame, não seja para todo mundo. Mas todos deveriam vir aqui ao menos uma vez para experimentar”.
COMO OS ROMENOS INFLUENCIAM ARTISTAS BRASILEIROS?
Há uma nova geração no país influenciada pelo som da Romênia. O DJ e produtor paulistano Oliver Gattermayr foi em duas edições do Sunwaves e absorve influências em sua produção: “Novas sonoridades, técnicas de mixagem, formas de tocar, os long sets, a forma como eles constroem, tudo me inspira. Aqui no Brasil não é comum um set de 6h, por exemplo. Algumas faixas são 100% focadas em drums e bases, mas em soundsystem poderoso, às vezes é suficiente”.

Ele lista Matei Tulbure, Praslea, Rhadoo, Dubtil e CEZAR como os artistas romenos que mais o influenciam. “Para minha próxima festa quero fazer uma estrutura visual semelhante, com trippy video-mappings em cima, como era lá”, explica. Sua festa Subdivisions traz o alemão Ion Ludwig, dia 6 de novembro, em São Paulo, e terá um gostinho romeno. *atualização em abril de 2016: a Subdivisions já está em sua quarta edição, que acontecerá em 24 de junho de 2016 na capital paulista. Acompanhe na página oficial deles.
ZOTA CATALIN, ORGANIZADOR DA LOCAL GATHERING
Zota começou a fazer festas em Bucareste em 2012, trazendo o ano passado a Local Gathering para além da Romênia, como o Off-Sonar em Barcelona. “A cena na Romênia não era tão desenvolvida como agora quando eu comecei a tocar, já com paixão. Estava tudo começando. Nós identificamos uma nova tendência e um novo gênero – mas não gostamos de dizer isso muito alto ;). Os clubs não eram tão undergrounds, acho que agora têm menos, mas são melhores. A galera queria tanto ir a festas que às vezes faziam coisas loucas, como pular janelas para seus pais não descobrirem, retornando antes de eles acordarem”, ele conta. Zota também fala de como o selo Arpiar mudou muitas coisas no país: “Foi o motor de tudo, profissionalizou a cena, surgiram novas festas e clubes, novos artistas, um novo mundo se abriu e o público se tornou mais educado e entendeu a cultura. Nunca imaginamos que esse novo estilo de house e minimal teria tanta repercussão”, completa.

Perguntado sobre as diferenças que ele enxerga entre os diferentes países que ele visita e o que ele acha que fez a Romênia ter uma cena tão especial, ele comenta: “Eu sempre digo para quem quiser ouvir: Se um dia as leis da Romênia proibirem as nossas festas longas (de 2 ou 3 dias), os afters e também de fumar dentro de estabelecimentos, eu mudarei imediatamente para Barcelona ou Berlim, eu acredito. Essas são as diferenças para mim, junto com a vasta exploração em cima dos novos artistas e os que forneceram a base do som da Romênia”.
E por último, não poderíamos deixar de perguntar: Quais são os seus conselhos para quem vai a primeira vez à Romênia experimentar este som profundamente? “Descanse bem, coma bem, venha feliz e de mente aberta para o novo. Não resista a essa única e verdadeira experiência. Marque o seu vôo de volta para bem tarde, do contrário, você vai ficar mal de ter de deixar a festa que rola dias a fio. Você vai querer ficar para sempre!”
