Selecionamos 5 faixas subvalorizadas do Daft Punk para comemorar o aniversário de um dos robôs

 

Por Flávio Lerner

 

Quem é muito fã de um artista conhece de cabo a rabo a sua discografia e tem na ponta da língua aquelas faixas que, se não são propriamente obscuras, são bem menos óbvias que os singles que geral conhece. E aí normalmente esse fã acha que muitas dessas faixas se sobressaem às mais manjadas, e fica com vontade de compartilhá-las com todo mundo — é assim que muita gente se motiva a virar DJ [ou jornalista], por sinal.

É sob essa premissa que trago aqui hoje, para homenagear os 42 anos do Guy-Manuel de Homem-Christo — completados antes de ontem, na verdade, em pleno carnaval —, cinco faixas do Daft Punk subvalorizadas, que estão muito além de hits como “Da Funk”, “Around the World”, “One More Time”, “Harder, Better, Faster, Stronger”, “Aerodynamic”, “Technologic”, “Robot Rock”, “Get Lucky” e “Lose Yourself to Dance” em termos de popularidade, mas que trazem o Daft Punk em sua melhor forma através das décadas. E como vocês podem imaginar, foi bem difícil escolher só cinco!


1 – “Revolution 909” [Homework, 1997]

Ok, calma gente: é um single, mas tá nessa lista porque dificilmente quem não é realmente fã conhece. O Daft Punk explodiu globalmente depois do Discovery, de 2001, que fez bombar “One More Time” em loop até a exaustão. Pouca coisa ficou marcada do Homework além de “Around the World” e, com uma expressividade menor, “Da Funk”. “Revolution 909” é, porém, das melhores faixas desse primeiro álbum: um hino extraoficial que homenageia o valor contracultural da cultura clubber; uma pedrada techno que nunca envelhece ou se torna enjoativa.


2 – “Crescendolls” [Discovery, 2001]

Discovery é um dos maiores álbuns da história da dance music, e ai de quem achar o contrário. “Crescendolls” é um ótimo exemplo de faixa perfeita que ficou ofuscada por singles belíssimos como “Something About Us” e “Digital Love”, que se destacaram mais por ter mais vocal e formato pop-friendly. Nessa faixa podemos ver como o Guy-Man e o Thomas Bangalter são especialistas em tirar o máximo a partir do mínimo: uma percussão 4×4 meio quebradinha, um synth arpeggiado e 16 compassos de disco music loopados pela música inteira; ninguém foi nem será capaz de fazer french house com tanta maestria. [Eu estou falando de “Crescendolls”, mas poderia estar tranquilamente me referindo a “High Life”.]

3 – “Superheroes” [Discovery, 2001]

A faixa mais destoante de Discovery. Os loops sobre loops estão ali, mas com uma batida bem mais pesada e um BPM bem mais alto — 140, velocidade de techno de raiz —, e uma vibe épica que se distancia do tom geral que permeia o álbum. Os vocais repetitivos nos fizeram indagar por anos o que diabos era a letra — “love is in the air”?, “run into the air”? —, e só pudemos cravar que era “something is in the air” quando descobrimos a fonte original do sample.
 

4 – “Giorgio by Moroder” [Random Access Memories, 2013]

É bem possível que o último disco da dupla, Random Access Memories, tenha feito mais barulho com sua campanha de marketing do que com seu conteúdo. Mesmo assim, é um álbum que tem faixas fantásticas e foi importantíssimo: consolidou o ápice do movimento de revivalismo da disco music, deu um boost nas carreiras dos pioneiros Nile Rodgers e Giorgio Moroder e influenciou a música pop a uma nova onda de som mais classe e menos juvenil. Mesmo com os ótimos singles “Get Lucky”, “Lose Yourself to Dance” e “Give Life Back to Music”, “Giorgio by Moroder” é a sua melhor faixa; duas aulas em um único som, e uma homenagem mais do que digna pro tiozinho Giorgio.

5 – “Human After All / Together / One More Time (reprise) / Music Sounds Better With You” [Alive, 2007]

Na prática não é uma faixa de estúdio, e sim um mashup feito ao vivo na lendária tour da pirâmide. Aquele show do Daft Punk, em que eles picotaram suas faixas e as misturaram em novas combinações — algumas vezes tendo até quatro ou cinco músicas diferentes em uma só — acabou sendo tão épico e revolucionário que foi lançado oficialmente como o álbum Alive, que está repleto de pérolas como essa, de arrepiar até os pelinhos da sobrancelha. Temos momentos de enlouquecer, como em “Around the World / Harder, Better, Faster, Stronger” ou “One More Time / Aerodynamic”, mas a escolhida daqui encerrou com perfeição o disco/turnê — além de possuir faixas menos manjadas, e com direito a “Music Sounds Better With You”, que na verdade é do Stardust, projeto paralelo do Thomas Bangalter nos anos 90.

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