Boiler Room com Vco Rox, Magal, Mau Mau e Agoria

No dia 06 de Maio ocorreu em São Paulo, certamente um dos eventos que ficarão marcados na história do Boiler Room. O projeto Londrino que começou em Março de 2010, já apresentou transmissões exclusivas de grandes artistas da Cena Eletrônica dita “Conceitual” ou alternativa. Originalmente criado como complemento à revista Platform, foi ganhando importância – como um dos canais mais vistos na internet, com as já tradicionais edições de Los Angeles, Nova York e Berlim.

No Brasil essa história teve início dia 04 de dezembro de 2013, na primeira edição ocorrida em São Paulo. Realizado no Cine Jóia, contou com artistas como Gui Boratto, Ney Faustini, Nomumbah (aka. Ale Reis, Andre Torquato e Rafa Moraes) e Zegon. A segunda em território nacional aconteceu no Rio de Janeiro dia 18 de Fevereiro – durante a sexta edição do Rio Music Conference, contando com a participação de Wladimir Gasper, Rodrigo S, Nepal, Maurício Lopes, Leo Janeiro e Flow & Zeo.

A terceira – num misto de discotecagem e entrevista, foi divida em três partes de uma hora cada, mostrando aos cerca de 20 convidados e a quem acompanhava via web boa parte da história do DJ Marky. O primeiro set foi recheado de faixas que o influenciaram no início da carreira, como funky, soul e música brasileira. Em seguida foi à vez das sonoridades eletrônicas dos anos 90. A parte final foi dominada pelo Drum n’ Bass, mesclado com novidades e alguns clássicos.

No último dia 14 de Maio, foi a vez do coletivo paulistano Metanol FM – rádio on-line independente criada e apresentada pelo DJ e músico experimental Akin desde 2010, formada atualmente também por MJP, Seixlack, Soul One, Vekr, e o seletor visual U-RSO -, além da apresentação do projeto Gaturamo. E este foi apenas o segundo de uma série de seis eventos exclusivos firmados através da parceria entre Skol Beats e Boiler Room para 2014.

Na segunda, dia 16 de Junho, será realizado o terceiro evento da série, que contará com Vco Rox (live act formado por Paula Chalup e Dudu Marote), Magal, Mau Mau e pelo Francês Agoria – autor de “Impermanence”, um dos álbuns mais belos da última década. O artista conversou com o nosso colaborador Francisco Raul Cornejo (apresentador oficial Boiler Room Brasil) dias antes de embarcar para sua turnê no Brasil. Entrevista essa que você confere a seguir:

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É interessante notar como a contribuição francesa para a música eletrônica, por mais variada e profunda que tenha sido, se dá em ondas. Mudanças que desde o impacto seminal de Schaeffer e Boulez geraram significativas alterações na paisagem sonora, e se materializaram em escolas, vogas, métodos e estilos. 

Cada geração traz consigo uma proposta tão inovadora quanto marcante, seja liderada por artistas que eram um amálgama de talento e personalidade – de onde se extraem personagens seminais – ou concentrada em grupos de extrema efervescência e que definem uma época. 

No último caso, podemos citar bastiões da opulência musical francesa como Celluloid, Ed Banger, Kitsuné, Circus Company e tantos outros selos que congregaram a crème de la crème de uma determinada assinatura sonora. Já entre os expoentes do primeiro, é difícil não lembramos de Richard Pinhas, Bernard Fevre, System 7, Motorbass, Daft Punk, I-Cube, Air, Cassius, Pépé Bradock e outros cujo trabalho já os colocou de modo irreversível no rol artístico da eletrônica global. Porém, pouquíssimos chegam a sintetizar tudo isso em uma contribuição que é tanto a celebração de uma trajetória individual como a concretização de uma visão que abarcou muito mais, e foi muito além do que ela apenas.

Agoria, sem dúvida, enquadra-se nesta categoria. Todo seu trabalho é fruto do esforço que é posto para trazer ao público ações diversificadas e duradouras, que transformaram a forma como apreciamos e entendemos a música durante a última década e, provavelmente, continuarão fazendo o mesmo no decorrer da próxima. 

Com simpatia e refinado bom-humor, ele divide por Skype um pouco de suas perspectivas sobre a carreira, a cena, o ofício, as parcerias e muitos outros tópicos.

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Sempre na correria, como de costume, certo? De onde você concede esta entrevista?
Estou aqui no estúdio, o lugar onde costumo parar para descansar quando não estou em turnê. Sei que pode ser soar clichê dizer que sou um workaholic, mas é assim que vivo o que faço. Neste momento estou me preparando para chegar ao Brasil e tocar pela primeira vez no Warung, e no D-Edge depois de um longo hiato. Nem preciso dizer o quão empolgado estou para ambos e, também, para o pequeno descanso que vou tirar de verdade logo após.

Então depois da etapa brasileira da turnê, você vai finalmente descansar? 
Exato. Eu reservei alguns dias sem datas para tocar pois ainda tinha algumas tarefas para serem finalizadas no estúdio. Talvez eu volte na Copa de 2014 para ver a França ser campeã, gostaria muito de poder fazer isso, mas nem sempre é possível me dar a esses luxos. Estou trabalhando intensamente no meu próximo álbum e dando os últimos acertos em um remix para o Moby que já tinha sido encomendado e precisava terminar antes de encarar a estrada novamente. 

Interessante, mais um álbum a caminho…
Eu espero que sim, e também que ele não desaponte ninguém, já que estou me dedicando muito a ele. Finalmente encontrei um modo de trabalho menos doloroso para mim. Assim não tenho que me dilacerar em dúvidas e ficar constantemente refazendo todas as minhas músicas, nota por nota, elemento por elemento. Agora eu finalizo as coisas com mais determinação e, não importando o quão inseguro esteja com o resultado parcial, deixo a faixa descansar um pouco para depois revistá-la com outros ouvidos.

Isso não é algo decorrente da sua crescente maturidade como produtor?
Pode ser, mas não estou certo disso. Sinceramente, não vejo meu percurso como tendo um rumo ou sendo um processo cumulativo. Todos aprendemos durante nosso trabalho em estúdio e fora dele, errando ou acertando. Daí que surgem novos métodos ou abordagens, mas eles também ficam obsoletos. Você muda como pessoa, como artista, e certos hábitos, antes descartados, podem voltar. Isso não é dizer que tudo pode voltar à estaca zero, mas sempre há tempo e espaço para acessar novamente seu trabalho anterior. É muito por isso que parei de produzir do jeito obsessivo e cansativo com o qual levava tudo a cabo antigamente. Era algo extenuante que, no caso de “Impermanence”, meu último álbum, acabou por atrasá-lo em um ano. Acabava até perdendo meu tesão pelas faixas, depois de retornar a elas tantas vezes buscando por detalhes que, no final das contas, poderiam ter sido deixados em sua forma original e teriam um resultado tão bom quanto aquele alcançado, apenas distinto, mais espontâneo.

Tendo isso em mente, é possível imaginar que você tenha mais segurança a ponto de saber quando uma faixa vai obter um determinado resultado ou mesmo êxito?
[risos] Nunca! Há músicas minhas que chegaram a fazer estrondoso sucesso, e das quais não esperava tanto. Por outro lado, já me decepcionei com outras, cujo fator de êxito me parecia quase inegável. Coincidentemente, posso dar um exemplo de cada caso com ambos os lançamentos que tive pela Innervisions. Quando toquei “Scala” num evento em que Dixon também ia tocar, ele me disse que queria aquela faixa para seu selo. Eu aceitei porque nem tinha planos para ela, e achei que coubesse na proposta. A repercussão alcançada me impressionou. Já no caso de “Singing”, foi exatamente o oposto. Compreendia algo mais planejado e tínhamos algumas expectativas, que ela falhou em cumprir de certa forma. É sempre algo imprevisível.

Essa é grande parte da mágica por trás da arte, certo? Não existe uma fórmula infalível para o sucesso, a não ser nos âmbitos mais comerciais e, portanto, cujas obras seguem regras e métodos mais rígidos e previsíveis.
Creio que sim. Eu trabalhei na indústria da música, mais especificamente no mundo do rock, por algum tempo antes de me dedicar à minha própria carreira. Isso me ensinou muitas coisas que me orientam até hoje em termos de organização e preparo para a comercialização do que faço, mas acredito, sim, que operamos num universo mais livre que aquele da EDM atual. Tenho um imenso apreço pela atemporalidade de algumas faixas, como “Big Fun”, “Good Life”, Strings of Life”, elas são imortais porque falam tanto a respeito da época em que foram criadas quanto nossos tempos atuais. Para mim, esse é o gabarito para dizer que se tem um clássico em mãos.

Certamente isto é algo que você tentou incorporar tanto em sua música quanto naquilo que procurou lançar pelo selo Infiné. Sempre pareceu que havia uma preocupação maior em trazer técnicas de composição que não eram tão corriqueiras na dance music.
Devo concordar, sim. Havia um certo consenso de como gostaríamos que o Infiné se concretizasse, e a musicalidade estava no cerne de nossas preocupações. Por mais que eu não faça mais parte das decisões do selo, estou extremamente orgulhoso dos artistas que conseguimos congregar ali em torno de um objetivo e uma estética comuns, ainda que cada artista ali tenha sua personalidade e sons característicos. Não posso dizer que tenho alguma ressalva quanto ao rumo que tudo tomou desde minha saída. Eu simplesmente precisava de mais tempo para outros aspectos da minha vida e carreira. Mas quero deixar claro que jamais pensei em criar uma nova Kompakt, R&S ou algo assim.

Isso é algo muito francês, ao que parece, essa vontade de abraçar o mundo e se lançar em inúmeras iniciativas. Me parece um “complexo de Laurent Garnier” do qual você também sofre: sua música, seu festival Nuit Sonores, o Infiné…
[risos] Acho que você tem razão, mas não é algo tão predeterminado assim, não é uma questão de querer me envolver em tudo, e sim de precisar. Quando o Laurent se lançou a fazer quase tudo que era humanamente possível para que a cena parisiense fosse conhecida pelo mundo, ele foi motivado pela mesma necessidade. Havia e ainda há muito talento sem uma estrutura apropriada para lançar seu trabalho, sem locais para se apresentar, foi isso que me impeliu com o Infiné inicialmente. Quanto ao Nuit Sonores, foi algo que queria fazer por Lyon, pelo potencial que via ali para comportar um festival desse tipo. E agora também temos ali o Sucre, meu club com o Laurent, que está indo muito bem. Talvez isto seja porque Lyon é uma cidade menor que Paris, e isso torne a promoção menos complicada. De qualquer modo, o público está lá e estamos conseguindo levar boa música a ele.

Nesse mesmo tópico, uma pergunta capciosa: você aceita pedidos de música quando se apresenta?
Essa é realmente uma questão complicada, mas devo dizer que aceito, sim. Claro que tudo dentro de um contexto já criado pelo meu set. Se for congruente com uma atmosfera e uma narrativa que estou tentando conjurar ali, não vejo problema algum. DJs não têm apenas de educar o público – e isso não quer dizer evangelizar – mas também devem entretê-lo. Estando ciente dessa dualidade essencial a nosso ofício, não me incomodo quando me pedem uma música.

Retornando ao fazer musical e à forma de composição privilegiada em suas empreitadas, o cinema também é uma delas, correto? Como foi trabalhar com essa frente que cada vez mais se torna viável e receptiva para artistas da música eletrônica?
O diretor Jan Kounen é um grande amigo meu e tivemos uma excelente parceria em alguns de seus filmes, o que acabou se tornando uma relação muito profícua e duradoura. Já trabalhamos em “Blueberry” e “99 Francs” e neste ano acabo de finalizar meus trabalhos para “Deep Self”, sua próxima produção.

Podemos esperar por Agoria live no futuro próximo?
Isso é algo que tenho planejado para levar o próximo álbum em turnê, sim. Vai ser uma boa mudança para mim, e a forma como a pessoas apreciam minha música. Porém, ainda há muito trabalho pela frente: preciso terminar o álbum, e daí começar a pensar numa proposta para o show, montar uma equipe, arranjar todos os detalhes para cair na estrada sem ter de me preocupar com nada além da performance. E também quero apresentar algo novo, interativo, que fuja aos padrões atuais, que não seja enfadonho ou repetitivo. De outro modo, para que arriscar, não é? Também, como já disse, espero poder ir ao Brasil ver a seleção francesa eliminar o país de vocês mais uma vez [risada maléfica]. Na verdade, o Hugo Lloris é um amigão meu e me convidou para ver alguns jogos e, com muita sorte e planejamento, serei capaz de realizar esse sonho.

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